Quero, mas não gosto: a Fomo por alimentos populares
- Comunica Uerj

- há 6 dias
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A experiência social de tentar gostar de um prato tradicional, que todos amam, e esbarrar na recusa do próprio paladar.
Por: Maria Estela Costa
Sabe aquele momento em que você está com seus familiares ou amigos, todos saboreando algo considerado popularmente delicioso, e você decide experimentar também, movido pelo famoso Fomo — o medo de perder uma experiência importante? Só que, em vez de compartilhar da mesma satisfação, vem a frustração: o sabor simplesmente não lhe agrada. Pois é exatamente sobre essa sensação que esta coluna irá tratar.
Unsplash/Nathalia Segato

Nas últimas semanas, percebi o quanto meus amigos da faculdade apreciam o clássico pão de queijo acompanhado de café, especialmente no café da tarde, entre 16h e 18h. Particularmente, adoro pão de queijo, mas o café só entra na minha rotina por necessidade — quando preciso me manter acordada durante alguma aula. Embora eu goste do aroma que se espalha pelo ambiente, o sabor amargo não me agrada. Nem adoçante, nem açúcar conseguem suavizar esse gosto para o meu paladar. É curioso: lembro de uma conversa que tive aos 14 anos com uma tia, que dizia ser apenas questão de tempo até eu gostar de café, já que a vida de trabalho e faculdade me levaria a isso. Hoje, trabalho e estudo, mas continuo sem apreciar café.
Outro alimento que costuma dividir opiniões é o açaí. A estudante de Relações Públicas Laura Valgueiro, de 21 anos, contou que, embora deteste o sabor, gostaria muito de apreciá-lo — não pela comida em si, mas pela experiência sociocultural que ele representa. “As pessoas sempre dizem: ‘Vamos ali tomar açaí.’ E eu não gosto, mas fico com muita Fomo”, relatou. O curioso é que, quando admite sua recusa, a reação é quase sempre a mesma: “Ninguém acredita, porque todo mundo gosta".
Esse exemplo nos leva a outro ponto da discussão: o constrangimento. Quem não aprecia esses pratos considerados clássicos sente a necessidade constante de se justificar, como se o simples fato de não gostar fosse interpretado como um desvio de conduta.
Ainda sobre o açaí, a estudante de Educação Física Ester Rosa, de 26 anos, lembrou que sua irmã se recusa a comer o fruto, sempre com o famoso argumento de que tem “gosto de areia". E, quando alguém pergunta se ela já provou areia, ela reafirma: o sabor e a textura simplesmente não descem.
Já para Ester, o alimento que não lhe agrada é talvez o mais clássico do dia a dia dos cariocas: o feijão. Assim como as pessoas do seu convívio, também fiquei surpresa. Não consigo imaginar uma semana sem almoçar um prato com feijão. Mas compreendo — minha avó, por exemplo, não come arroz de jeito nenhum. Ester explica que, mesmo sem gostar, se força a comer pensando nos benefícios à saúde: “O feijão é uma coisa de que eu nunca gostei, desde criança. Tento comer para não ter nenhum problema de saúde, mas eu não gosto, não gosto mesmo. Se puder não comer, eu não como”, contou.
A hora do almoço é um dos momentos em que o constrangimento aparece. Luiz Fábio de Souza, estudante de Economia de 20 anos, contou que enfrenta esse dilema no restaurante universitário nos dias em que o prato principal é peixe: “Sempre tem aqui na Uerj, todo mundo vai, todo mundo come, todos os meus amigos comem, mas eu odeio peixe. Já tentei quando era criança, já tentei agora e não consigo. Todo dia que tem peixe aqui na Uerj, eu sou o único que não vai”, relatou. Não seguir o fluxo faz com que ele seja rotulado: “Falam que eu tenho paladar infantil", desabafou.
Se serve de consolo para Luiz Fábio, no meu grupo de amigos o estranho é justamente gostar de peixe. Quando ele aparece como prato principal no bandejão, sou uma das poucas que vão animada para comer. Por isso, Luiz Fábio, não se sinta só: a resistência aos dias de peixe é bem maior do que parece.
Para evitar o problema que Fábio enfrenta ao se sentir isolado, João Pedro Marins, estudante de Jornalismo de 19 anos, encontrou no teatro social uma saída. Embora seja um grande fã de frango, ele não gosta de coxinha nem de empadão, por causa da textura da massa. Não é questão de estar 'massudo' demais, mas sim de não agradar ao paladar. Para escapar de julgamentos entre familiares e amigos, João Pedro adotou uma tática: “Eu como, mas não gosto. Tem que fingir que gosta. É como tomate: eu também não gosto, mas tenho que fingir que gosto para ser moralmente aceito”, contou.
A fala de Ester resume bem o ponto central dessa discussão: o paladar é uma experiência pessoal. É inegável que a comida aproxima as pessoas — queremos estar junto de quem amamos, compartilhar o entusiasmo de saborear o que gostamos e criar uma atmosfera acolhedora. Mas é importante lembrar que nossos gostos são exclusivamente nossos; não se negociam com a expectativa do outro. Respeitar o gosto alheio é essencial para nutrir as relações e tornar o ambiente ainda mais leve e divertido.








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