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Suas escolhas de estilo são mesmo suas?

  • Foto do escritor: Comunica Uerj
    Comunica Uerj
  • 29 de ago.
  • 4 min de leitura

Da passarela às redes sociais, entenda como as tendências circulam em duas vias e porquê ninguém escapa dessa influência 


Por: Vitória Perez


Roupas e tendências da moda podem nunca ter sido um assunto que você se interessou. Aquele mundo distante de desfiles internacionais e roupas esquisitas, coisa de quem tem tempo e dinheiro sobrando. Mas, passeando no shopping, você, por alguma razão, resolve dar uma volta numa loja de departamento. Andando pelas araras, você repara que uma cor está em todo canto: verde-musgo. Sem esforço, você pensa: “Prefiro o bom e velho preto.” Dá mais uma volta e sai de mãos vazias. Afinal, você não liga para esse tipo de “coisa”.

Talvez você já tenha vivido uma cena parecida, ou talvez você seja ainda mais radical: nunca repara em vitrine, só usa o básico para o dia a dia  — camiseta branca, jeans, ponto final. E considera isso uma escolha neutra. Contudo, nunca parou para pensar que essa recusa também é, à sua maneira, uma posição de estilo. Estamos sempre muito seguros dos nossos gostos — o que achamos bonito, exagerado ou "básico demais". Mas será que você foi mesmo o único responsável por formar esse gosto; inclusive o gosto de dizer que não tem gosto?


Foto: Kate Trysh/Unsplash

Loja de departamento, araras e manequins na seção masculina
Loja de departamento, araras e manequins na seção masculina

Quando você pensa em moda, o que vem à cabeça? Supermodelos, roupas extravagantes, talvez uma cena de O Diabo veste prada. A passarela quase sempre aparece só como pano de fundo, modelos magérrimas estampando um ar de indiferença desfilando em roupas estranhas, enquanto você pensa "isso não é para mim". Só que, quando olhamos com mais atenção para esse mundo, percebemos que ele está bem mais perto do que parece.


Numa primeira olhada, a passarela pode parecer apenas a vitrine onde estilistas excêntricos mostram seu trabalho para um público seleto, o que não é totalmente errado. Mas o papel dela vai além disso: é ali que conceitos nascem. Toda coleção carrega uma mensagem, do estilista ou da marca, e é através dela que a indústria comunica o que devemos desejar. Wanda Maleronka, professora de moda da Universidade Anhembi Morumbi, resume bem isso numa entrevista à Superinteressante: “A passarela cria condutores da imaginação, ligando sonho e realidade.” Além de mostrar novidades, ela grava no imaginário coletivo aquilo que "devemos" consumir depois.


Existem desfiles diferentes para públicos diferentes: alta-costura, mais elitizada e sob medida; prêt-à-porter, produzido em maior escala para público geral; e nichos como moda praia e moda masculina. Não importa o público, a lógica é a mesma: o mercado usa a passarela pra decidir, com antecedência, o que vai virar tendência.


Ainda sim, você pode se perguntar: o que isso tem haver comigo? É aí que a "mágica" (ou estratégia) acontece e ela tem nome: trickle-down, ou efeito gotejamento. De acordo com Isabella Mirindiba, designer de moda, Isabella Mirindiba, uma marca define uma cor da estação, como faz a Pantone todo ano, ou reapresenta um tecido ao mundo, como fez a Gucci com o couro. A mídia espalha essa ideia do que é "se vestir bem", celebridades usam essas peças em eventos como lançamentos de filmes ou premiações, e a classe alta começa a reproduzir o que viu no tapete vermelho. Meses depois, quando aquele estilo já não é mais exclusivo o bastante pra essa classe, ele desce para lojas populares.


Só que hoje a passarela não é mais a única voz dessa conversa. Existe um movimento contrário chamado bubble-up (ebulição), em que a lógica se inverte: as tendências nascem de baixo pra cima, como bolhas subindo numa chaleira fervendo. Um grupo começa a usar determinada peça como marca de identidade, a classe média enxerga ali uma chance de inovação e abraça o estilo, a mídia percebe e amplifica, até que as classes mais altas, e as próprias marcas de luxo, entram na onda para não ficar de fora. Foi assim com o grunge nos anos 90: enquanto Kurt Cobain dominava as rádios, o estilo desleixado com roupas em camadas virava símbolo de identidade entre os jovens norte-americanos. Segundo a Vogue, em 1992, Marc Jacobs, então diretor criativo da Perry Ellis, assinou uma coleção inteira inspirada nessa cena, décadas antes de qualquer rede social existir.

 

Reprodução: Instagram/@shopmyyvault

Modelo desfila para coleção grunge Marc Jacobs, Perry ellis
Modelo desfila para coleção grunge Marc Jacobs, Perry ellis

E é justamente aqui que mora a parte mais interessante: o bubble-up não é invenção da internet, mas foi a internet que multiplicou sua velocidade para se tornar o bubble-up-digital. Antes, um estilista poderia levar anos para descobrir uma tendência, como aconteceu com o grunge. Hoje, basta a equipe de pesquisa de uma marca de luxo passar alguns minutos rolando o feed para “descobrir” uma próxima tendência. 


Dá para dizer, então, que a moda não segue mais uma única direção — ela sobe e desce ao mesmo tempo, entre a passarela e a rua, entre a grife e o feed do Instagram. E se é assim, também não dá para dizer que estamos alheios a ela: estamos cercados por suas influências o tempo todo, seja num desfile, seja nos canais que acompanhamos todo dia.


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