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Por que não devemos comer com os olhos?

Foto do escritor: Comunica Uerj
Comunica Uerj
5 de out.
3 min de leitura

Entenda como as redes sociais podem impactar nossos hábitos alimentares. 


Por: Sofia Inerelli


Foto: Tânia Rêgo/Abr  

O consumo com os olhos: aparelhos de tecnologia impactam no consumo alimentar


Na última quinta-feira (24), fui pela primeira vez ao Rio Gastronomia, maior festival do gênero no Brasil, realizado entre os dias 17 de setembro e 4 de outubro, no Jockey Club. Porém, antes mesmo de chegar, já tinha experimentado o que iria comer no evento. Pelas redes sociais, assisti a vídeos com resenhas sobre o que era mais gostoso, quais eram os preços e quais eram os pratos mais famosos. Não precisei pensar muito: ao entrar, encaminhei-me diretamente para aquilo que, uma semana antes do evento, havia entendido que gostaria de comer.


De fato, a comida estava espetacular. O evento contava com alguns dos restaurantes com as avaliações mais positivas da vida carioca. Não tinha dúvidas de que seria assim. Entretanto, ao comer e até o momento em que escrevo esta coluna, continuo à espera de uma surpresa. Não é uma crítica ao evento ou a sua comida, e sim uma reflexão sobre o modo como consumimos atualmente, voltados a realizar tudo aquilo que todos os outros também estão fazendo. Acredito que, para além de experimentar os pratos famosos, queria entender porque escolhi comer aquela comida e ser surpreendida pela descoberta. 


Há um motivo central que nos leva a comer: a sobrevivência. Mas há vários outros para entendermos o porquê daquilo que comemos. Às vezes, não há muito motivo para comermos o que tem na geladeira. Nos tempos de hoje, é comum ser o que viralizou. Mas o fator popularidade sempre funcionou como um grande influenciador de nossas escolhas gastronômicas. Seja por uma recomendação feita por um amigo, por uma crítica em uma revista ou por vermos uma fila grande do lado de fora de um estabelecimento, somos levados a querer experimentar também.


Porém, com a internet, a novidade quase perdeu seu caráter, pois passamos a ter toda a experiência em seus mínimos detalhes. Não há mais a vontade de conhecer o novo, mas de acompanhar todas as tendências. As pessoas não têm fome; elas têm Fomo, ou seja, o medo de estar perdendo algo. No Brasil, também expressamos esse sentimento quando alguém diz que não quer ficar de fora. 


Foto: Abr 

Menino com hambúrguer e a batata frita em suas mãos. Ele não apenas vê a comida, mas a deseja profundamente


Acompanhar todas as tendências pode acabar afastando também aquilo de que realmente gostamos, como as comidas que consumimos na infância. Luana Pinto (36), que trabalha com design gráfico, compareceu ao Rio Gastronomia em busca de experimentar comidas diferentes, mas já perdeu o hábito de consumir aquilo que marcou sua infância e a de uma geração inteira: bolinhos de chuva. “Eu nunca fiz; na verdade, era a minha avó que fazia”, comentou ela.


Com o tempo, certos hábitos alimentares são, de fato, perdidos. Mudamos nosso paladar, passamos a querer comer de forma mais saudável e deixamos de lado as comidas das avós e de outros familiares que amávamos quando éramos mais novos. Entre o doce e o amargo da vida, convido você leitor a voltar a se surpreender e a recuperar o prazer de comer aquilo de que gosta. O que é recomendado nas redes não deixa de ser válido, mas é difícil atribuir um outro sentido àquilo que consumimos quando a justificativa se resume a: “É algo famoso.”


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