Redes sociais x livros: a disputa pela nossa atenção
- Comunica Uerj

- 25 de jul.
- 4 min de leitura
Por: Kawani Vitória
O tempo dedicado às redes sociais tem crescido entre os brasileiros, enquanto o hábito da leitura recua – um movimento que preocupa especialistas e já aparece refletido em diferentes pesquisas sobre saúde mental e comportamento. De acordo com o IBGE, o índice de pessoas que usam a internet no Brasil aumentou entre 2024 e 2025, chegando a 90,5% da população brasileira.
Mas, enquanto o número de pessoas conectadas cresce, o número de leitores diminui. O Brasil perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores em apenas quatro anos, segundo a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-livro. Pela primeira vez na história da pesquisa, iniciada em 2007, a quantidade de não leitores é maior do que a de leitores: 53% das pessoas não leram nem parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Segundo o relatório, os principais motivos que afastam as pessoas das páginas são a falta de tempo, desinteresse pelo hábito e preferência por outras atividades, como consumir conteúdo nas redes sociais.
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Nesse mesmo relatório, quando perguntados sobre o que dificulta a leitura, 26% responderam que não têm paciência para ler e 14% disseram não ter concentração. Especialistas apontam que o consumo frequente de conteúdos curtos e rápidos, característicos das redes sociais, pode dificultar a manutenção da atenção por longos períodos. O funcionamento dessas plataformas é baseado em um fluxo contínuo de estímulos, oferecendo ao usuário novidades constantes e recompensas imediatas, o que favorece um padrão de consumo acelerado. Nesse cenário, a atenção deixa de ser linear e passa a ser inconstante, tornando mais difícil dedicar longos períodos a atividades que exigem maior esforço cognitivo, como a leitura de livros.
Há também estudos que indicam que o uso excessivo de redes sociais aumenta a irritabilidade, principalmente entre usuários do X e do Facebook. Um dos motivos é o famoso ragebait: publicações feitas propositalmente para gerar uma reação negativa como raiva, choque ou indignação. Nas redes sociais, as pessoas costumam agir com mais impulsividade e menos filtros do que em conversas presenciais, o que favorece conflitos e reações negativas. Além disso existe o doomscrolling: o termo une as palavras em inglês "doom", que indica catástrofe, e "scrolling", que é o ato de deslizar pela tela enquanto navegamos pelas redes sociais – que descreve o hábito de consumir continuamente conteúdos negativos on-line, mesmo quando isso causa desconforto. Esse comportamento, mais comum entre os jovens, pode aumentar a ansiedade, o estresse, a insônia e os sintomas de depressão.
Já a leitura tem efeito oposto sobre o estresse. Uma pesquisa da Universidade de Sussex revelou que ler por apenas seis minutos por dia pode reduzir os níveis de estresse em até 68%, resultado superior ao alcançado com atividades como ouvir música, caminhar ou tomar uma xícara de chá. Isso acontece porque, ao mergulhar em uma história, a pessoa se desconecta temporariamente da própria realidade. Como consequência, há uma redução da tensão muscular e uma diminuição significativa da frequência dos batimentos cardíacos, o que promove uma sensação de relaxamento.
Reprodução: Youtube

A substituição das redes sociais pelos livros
Com tudo que já foi dito sobre as redes sociais e as consequências de seu uso excessivo, jovens e adolescentes têm se preocupado com a quantidade de tempo que passam no celular. "Eu fui dar uma olhada no tempo de tela do meu celular e eu fiquei chocada, semana passada eu passei 4 horas e 54 minutos por dia no meu celular, o que é muito. A gente sempre cai naquele buraco de ficar rolando o feed infinito, e aí quando você percebe já passou sei lá quanto tempo, então eu fiquei um pouco assustada com essa quantidade de tempo que eu estou gastando no celular”, disse a youtuber Júlia Belinatti no começo de um vídeo do canal dela.
No vídeo, a criadora de conteúdo decide fazer um desafio inspirado na internet: ler pelo mesmo tempo que costuma passar no celular. No início, ela sente dificuldade de manter a concentração e percebe o impulso constante de pegar o celular para verificar notificações, o que a faz refletir sobre o quanto esse hábito pode se tornar um vício.
Ao longo da experiência, ela comenta que, conforme a história fica mais envolvente, a leitura se torna mais fácil e prazerosa. Ela diz também que tinha um medo muito comum entre os jovens: o de perder algo enquanto estava afastada das redes – mas, no fim, percebeu que não perdeu nada importante por ficar menos tempo conectada.
Essa experiência de trocar as redes por livros também é compartilhada pela estudante de Letras, Júlia Oliveira, que relata passar entre 4 e 5 horas no Instagram e no Twitter (X). Apesar disso, Júlia afirmou que, quando começa um livro, substitui esse tempo nas redes pelo app de leitura. Ela contou, ainda, que as redes influenciam na escolha do tipo de livro. “Existem muitas indicações e resenhas para tentar lhe convencer a ler um determinado livro, e às vezes conseguem.” Esse relato mostra que as redes sociais não precisam ser vistas apenas como um obstáculo à leitura, mas que seu uso consciente pode até incentivar o hábito de ler.








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