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Quando o ônibus não é para todos: Minha saga no transporte público

Foto do escritor: Comunica Uerj
Comunica Uerj
22 de set.
3 min de leitura

O que os alunos fazem quando o transporte não os contempla?


Por: Diego Oliveira


Antes da nossa conversa semanal, saúdo meus pais, Dona Eliane e Seu Robison, pelos 34 anos de casamento, completados no último dia 12 de setembro de 2026.


Um fator decisivo na minha escolha pela Uerj — e de outras pessoas com deficiência — foi a facilidade de chegar e circular pelo campus Maracanã. A universidade conta com blocos integrados, rampas, elevadores e salas amplas. Outro fator importante é o fluxo de pessoas e os pontos de orientação. Apesar das calçadas quebradas, obstáculos e desníveis que dificultam a circulação, considero o campus acessível graças à solidariedade dos heróis anônimos do dia a dia.


Para ir e vir diariamente, temos trem, metrô, ônibus e transportes particulares. É nos ônibus municipais e intermunicipais que está o maior problema de acessibilidade. Embora o ônibus pudesse ser a melhor opção por atender o Rio, a Baixada Fluminense e a Região Metropolitana com apenas uma condução, muitas pessoas com deficiência preferem o metrô ou o trem devido à falta de acessibilidade nos coletivos e à falta de treinamento dos profissionais.


O Decreto Federal nº 5.296/2004 trouxe avanços: a partir de 2008, novos ônibus incluíram plataformas elevatórias e espaços para cadeirantes. Mas a acessibilidade está longe de ser plena, pois a população com deficiência tem necessidades diversas. A plataforma elevatória atende a cadeirantes, mas não resolve os problemas de cegos, idosos ou pessoas com mobilidade reduzida. Faltam alertas sonoros para identificar linhas no ponto e anúncios das paradas para o desembarque.


É preciso ampliar o uso de piso baixo e treinar motoristas para operar equipamentos e auxiliar no embarque, viagem e desembarque. Por isso, preciso pensar cuidadosamente em qual transporte usar diariamente.


Divido minha rotina entre Amapá, em Caxias, e Bonsucesso, no Rio. Para ir à casa dos meus pais em Caxias, eu poderia combinar os ônibus 488L (Viação Transporte Fabius) e 449L (Transporte Santo Antônio). Na prática, prefiro o trem entre Caxias e a Uerj. O transporte ferroviário oferece melhor estrutura: funcionários para auxiliar no embarque e desembarque, e avisos sonoros que informam as estações.


No trajeto entre a Uerj e Bonsucesso, onde fico com minha linda Aline, posso integrar trem e ônibus. Porém, ao desembarcar na estação Bonsucesso, costumo pegar vans para a Ilha do Governador, pois os motoristas têm mais tempo para me ajudar no desembarque em frente à Passarela 9 da Avenida Brasil.


Nos ônibus, o motorista precisa dirigir, cobrar passagens, dar troco, vigiar o trânsito e lidar com conflitos. Nesse cenário, fica difícil dar a atenção necessária a uma pessoa com deficiência. Nesse ponto, a acessibilidade deixa de ser só equipamento e passa a exigir estrutura, preparo e condições de trabalho.


Para ampliar a acessibilidade, o então deputado federal David Soares (SP-Democratas) apresentou o Projeto de Lei nº 4.041/2019, que propõe sinais sonoros em coletivos e terminais para orientar deficientes visuais com autonomia. O projeto foi aprovado na Comissão de Desenvolvimento Urbano e aguarda análise na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.


Meus amigos e minhas amigas, a boa vontade das pessoas é maravilhosa. Já vivi histórias engraçadas, curiosas e emocionantes graças à ajuda recebida para embarcar ou desembarcar de ônibus. No entanto, a solidariedade deve ser uma opção e não a única alternativa. Não quero depender de terceiros no ponto, motoristas ou passageiros para ter autonomia e escolher meu transporte como qualquer outro cidadão.


Para isso, o poder público precisa se mobilizar com empresas e montadoras para implementar mecanismos que garantam essa autonomia. Seja para ir à Uerj, trabalhar, estudar ou circular, queremos o direito de escolher como nos deslocar. A acessibilidade precisa ser um padrão do transporte público, não uma exceção.


Ter uma deficiência no Brasil não nos isenta de obrigações. Se cumprimos as mesmas leis, temos o direito de exigir serviços públicos preparados com dignidade, segurança e autonomia. A acessibilidade não é um favor: é um direito a ir e vir com liberdade e autonomia.


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