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Canetas emagrecedoras: usos e desusos

Foto do escritor: Comunica Uerj
Comunica Uerj
22 de set.
4 min de leitura

O descontrole na aplicação do medicamento assusta especialistas. A tecnologia que promete a perda de peso, se não utilizada adequadamente, pode ser prejudicial à saúde


Por: Lívia Martinho e Sofia Inerelli


As canetas emagrecedoras chegaram ao cotidiano de forma abrupta. O que parecia ser uma tecnologia superfuturista passou a fazer parte das conversas sobre nosso corpo, nossa saúde e o emagrecimento antes que pudéssemos compreender sua atuação e seus limites. A cada momento, uma nova substância é descoberta acompanhada de seus efeitos colaterais. Em tempos assim, aconselhamos seguir os passos de Elis Regina, ligar para um marciano e ver se, assim, compreendemos a loucura da Terra.


Crédito: Haberdoedas Photography / Pexels

Canetas à base de semaglutida passaram a ocupar espaço nas discussões sobre emagrecimento, saúde e uso de medicamentos.


As canetas emagrecedoras são medicamentos que atuam sobre mecanismos relacionados à fome e à saciedade. A semaglutida, presente em medicamentos como o Ozempic, atua sobre o GLP-1, enquanto a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, atua sobre os receptores de GLP-1 e GIP. Na prática, essas substâncias imitam a ação de hormônios envolvidos na regulação do apetite e podem aumentar a sensação de saciedade.


O uso das canetas é indicado para casos de diabetes tipo 2 e/ou obesidade, sempre com acompanhamento médico. Porém, após a descoberta de que essas substâncias podem levar ao emagrecimento, a procura e a compra dispararam. Um levantamento da Scanntech mostra que o consumo de medicamentos à base de GLP-1 (classe que inclui semaglutida e tirzepatida) cresceu 244% no primeiro semestre de 2026 em comparação ao mesmo período de 2025, somando o mercado formal e a estimativa de consumo informal.


Mesmo que atuem na modulação do apetite, o uso das canetas precisa estar associado à criação de um ambiente em que o corpo consiga reduzir a gordura e preservar ou aumentar a massa muscular. Esses processos não ocorrem naturalmente. Sem treino, a massa muscular não cresce e, sem uma alimentação saudável, a perda de gordura não ocorre de forma adequada. Apenas deixar de comer pode fazer com que o corpo entre em um estado de sobrevivência, levando à perda tanto de gordura quanto de massa muscular.


Há também efeitos colaterais, como náuseas e vômitos, diarreia e constipação intestinal. Em geral, esses sintomas tendem a diminuir ao longo do tratamento, especialmente quando a dose é ajustada de forma gradual. Outro ponto de atenção é a perda de massa magra. Também há risco de formação de cálculos na vesícula biliar e de pancreatite, que consiste na inflamação do pâncreas.


Adultos, adolescentes e crianças podem sofrer essas consequências. Entretanto, para os mais jovens, como apontou Gustavo Casimiro, professor associado da Uerj e pesquisador nas áreas de fisiologia e bioquímica do exercício, o fato de serem menores de idade cria uma barreira imposta pelos pais ao consumo dessas substâncias. Ainda assim, o alerta para a sociedade precisa continuar.


Embora essa participação crie uma dificuldade para o uso das canetas entre crianças e adolescentes, dados dos Estados Unidos mostram que essa proteção não é absoluta. Uma reportagem da CNN Brasil, publicada em setembro de 2026, aponta que o uso de medicamentos para emagrecimento entre crianças menores de 12 anos no país cresceu 300 vezes desde 2019.


Mesmo quando as canetas não estão presentes, crianças e adolescentes continuam expostos à pressão pelo emagrecimento. Redes sociais, bullying e comentários sobre a aparência podem influenciar a relação dos jovens com o próprio corpo e contribuir para práticas também perigosas, como, por exemplo, o jejum.


Apesar de terem ganhado espaço nas conversas sobre emagrecimento, as canetas não foram desenvolvidas para atender a qualquer desejo de perder peso. Mais do que uma fórmula única para emagrecer, o acompanhamento precisa considerar as condições clínicas e a realidade de cada paciente. Médico, nutricionista, psicólogo e profissional de educação física podem participar desse processo conforme as necessidades identificadas. Afinal, quando a questão deixa de ser apenas a balança, também existe a saúde, a rotina e a relação de cada pessoa com o próprio corpo.


A nutricionista Juliana Magalhães relata o caso de uma paciente que iniciou o uso do medicamento aos 14 anos. A adolescente apresentava obesidade, resistência à insulina e alteração na hemoglobina glicada. A medicação havia sido prescrita por um endocrinologista, com acompanhamento da mãe, e o tratamento envolvia profissionais de diferentes áreas, como nutricionista e psicólogo. A paciente também passou a praticar atividade física. Posteriormente, a medicação foi reduzida de forma gradual, enquanto os outros cuidados continuaram.


Para Juliana, a continuidade do acompanhamento é importante porque, com a retirada da medicação, a fome e os hábitos anteriores podem retornar. Por isso, mudanças na alimentação, na rotina e no ambiente também fazem parte do processo de tratamento. É nesse ponto que o uso médico se distancia da procura motivada exclusivamente pela estética.


Pessoas sem indicação clínica podem procurar as canetas por motivos estéticos, como uma solução rápida para perder alguns quilos, enquanto outras continuam utilizando a medicação por conta própria mesmo após o fim do tratamento prescrito. Nesse movimento, a busca pelo emagrecimento pode transformar uma ferramenta clínica em mais um recurso associado à construção de um corpo padrão. Vídeos de influenciadores, relatos de resultados rápidos e a facilidade de acesso às canetas ajudam a aproximar o medicamento do cotidiano e podem fazer com que seu uso pareça mais simples do que realmente é.


Crédito: Verônica Rangel

Gustavo Casimiro e Juliana Magalhães discutem os efeitos, os cuidados e os limites das canetas emagrecedoras.


E, enquanto aprendemos a lidar com as canetas que já existem, novas versões estão sendo desenvolvidas. Segundo Gustavo, já estão sendo testados produtos que combinam substâncias voltadas à perda de peso com outra destinada ao aumento da massa muscular. A proposta seria reunir, em uma mesma medicação, diferentes mecanismos de ação, embora os efeitos colaterais ainda sejam uma preocupação.


A própria forma de uso dos medicamentos pode mudar: em vez de serem aplicados por injeção, poderão ser administrados por via oral. Para os profissionais, a chegada de novas opções deve manter o debate sobre os efeitos e os limites dessas medicações.


Bom, talvez seja hora de ligar para um marciano. Não para explicar o que são as canetas, mas para perguntar como lidar com algo que chegou tão rápido que mal tivemos tempo de compreender seus limites.


Se antes parecia coisa de outro mundo, agora já faz parte da Terra. A questão talvez não seja descobrir se estamos diante de uma solução ou de um problema, mas se conseguiremos aprender a lidar com aquilo que a tecnologia coloca em nossas mãos antes que a próxima novidade chegue.

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