Educar para Transformar: novas oportunidades pela educação para trabalhadores terceirizados

Projeto oferece apoio pedagógico para funcionários terceirizados da universidade em diferentes níveis de escolaridade.
Por: Júlia Martins
Foto: Educar para Transformar / Instagram: @educarparatransformaruerj

Trabalhadores terceirizados da empresa Soll nas primeiras aulas. Ao todo, 88 funcionários participam do projeto.
“Me incomoda muito ter gente trabalhando numa universidade que não sabe nem ler.” A fala é do professor Elir Ferrari sobre a criação do projeto Educar para Transformar, que tem como objetivo oferecer aulas para funcionários terceirizados da Uerj em diferentes níveis de escolaridade. Cerca de 70 trabalhadores são alunos do projeto no Campus Maracanã e 18 no Campus FEBF, em Duque de Caxias. A iniciativa vem com o compromisso de reduzir desigualdades e permitir que eles possam realizar o sonho de estudar. São turmas com aulas para alfabetização, ensino fundamental e para o ensino médio, voltada para a prova de conclusão do mesmo, o Encceja.
Tudo começou em 2025 quando Marcos Mateus, coordenador do projeto e professor de matemática, se ofereceu para dar aulas no horário do almoço para uma funcionária terceirizada que desejava retomar os estudos. Ao fazer o convite, ela trouxe cerca de 12 funcionários interessados em ter aulas com ele. Ao perceber a demanda, ele convidou alguns amigos professores para serem voluntários e em 2026 conseguiu formalizar o projeto a partir de uma emenda parlamentar. Atualmente, eles possuem uma equipe com 8 bolsistas da graduação e ofertam aulas de português e matemática para as duas turmas.
O projeto se responsabiliza por apresentar a iniciativa para as empresas terceirizadas através de palestras, a fim de mapear os funcionários interessados em participar. No campus Maracanã, a empresa Soll, responsável pela limpeza do prédio, é uma das que possuem diversos alunos. As turmas são pequenas para fazer os estudantes se sentirem mais à vontade, além de todas as atividades estarem ligadas aos trabalhos realizados por eles. Marcos explica que a melhor forma para eles aprenderem é conectar o ensino com tarefas que já conhecem: “A gente tenta fazer essa reflexão de uma forma muito descontraída, para que o conhecimento comece a entrar de uma forma que não seja elitizada. A partir dessa compreensão, a gente vai para a formalização."
A educação para jovens e adultos enfrenta diversos desafios, seja pela rotina dos estudantes ou por pensamentos enraizados que os desmotivam. Por isso, são necessárias pessoas com paciência e que possam escutar os estudantes para evitar o desânimo com as dificuldades. Marcos Matheus conta que cada um tem o seu tempo de aprendizado, e respeitando isso, é possível fazer com que o trabalhador ganhe confiança e avance nos estudos: “Cada um tem o seu tempo, nós precisamos respeitar isso. Não existe um tempo: você precisa no final do mês saber fração, você precisa no final do mês poder interpretar um texto.”
Foto: Educar para Transformar / Instagram: @educarparatransformaruerj

Alunos realizam atividades com o professor Elir Ferrari e o bolsista de letras Luis Carlos Lima
Uma das dificuldades do projeto é conseguir mostrar que a Uerj também é um lugar para eles. Muitos têm filhos ou netos que estudam na universidade, mas não conseguem se enxergar como futuros universitários ou continuar os estudos: “Por que você não pode ser essa pessoa universitária? Esse espaço é público. De alguma maneira, ele (funcionário) internalizou que isso aqui não é para ele. Existe um bloqueio psicológico muito grande, narrativas que foram criadas", completa Marcos. As aulas acontecem duas vezes na semana de forma presencial, com atividades on-line no restante da semana. A auxiliar de limpeza Carla de Souza, 47, é aluna da turma do fundamental e fala que a oportunidade é uma chance de mudar de vida: “Eu quero aprender o que não tive nos estudos lá atrás. Hoje em dia, eu quero aprender para mim, para ser alguma coisa na vida. Ter um objetivo, poder sair da limpeza e ajudar outras pessoas.”
Damião dos Santos, 49, soube do projeto por uma colega de trabalho e viu o projeto como uma porta que se abriu para ele aprender a ler e escrever. Damião trabalha na limpeza há pouco mais de 1 ano e agora pretende dar continuidade aos estudos para no futuro poder cursar informática: “Me aprimorar. Quem sabe, no futuro, eu possa ser um grande empreendedor, com a graça do meu Deus. Na nossa vida, a gente que vem de baixo, vem de comunidade… A gente tem que sonhar alto.” Ele também fala sobre as dificuldades de não saber ler no dia a dia e como isso o afasta de muitas oportunidades: “As pessoas não lhe levam a sério. ‘Como você, um homem desses, não sabe ler?’ Você vai pegar um ônibus e não sabe qual é, porque não tem como ler. Não tem como andar pelos lugares, porque não dá para saber onde você está.”
A ideia é também promover uma formação continuada. Muitos funcionários concluíram o ensino médio, mas sabem que não foi feito da melhor forma e por isso querem retomar esse processo. Por isso, um dos próximos passos é criar uma turma específica para revisar esses conteúdos, além de direcionar esses alunos para pré-vestibulares sociais.
Outro objetivo é expandir a iniciativa cada vez mais. Eles precisam de voluntários que estejam disponíveis com coração aberto para ouvir e acolher, além de mais professores para ofertar aulas de outras disciplinas. O projeto dá horas complementares para quem participa, além de ser uma ótima oportunidade para os alunos dos cursos da educação ganharem experiência. Todos podem participar, a única exigência é ser uma pessoa de bom coração, com paciência e escuta: “Para ouvir a dificuldade do outro e se colocar no lugar daquela pessoa que por anos e anos e anos teve esse processo de ensino bem demonizado, digamos. Para a gente pegar essas pessoas e falar: 'Vamos juntos, ponto a ponto! Não deu? Repete.’”








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