A família dos trens do Rio: onde a falta de acessibilidade é compensada com acolhimento e união

Por: Diego Oliveira
Na semana passada, conversei com vocês sobre a experiência de nós, pessoas com deficiência, ao utilizarmos os ônibus do Rio de Janeiro para chegar à Uerj e voltar para casa. Nesta edição, darei continuidade ao assunto, mas desta vez seguindo pelos trilhos.
Para muitos estudantes que vivem na Zona Norte, na Zona Oeste do Rio de Janeiro ou na Baixada Fluminense, o trem é parte indispensável da rotina. No meu caso, não é diferente. Embora exista uma grande oferta de linhas municipais e intermunicipais que fazem a ligação com a Uerj, muitas vezes sem a necessidade de utilizar dois ou mais ônibus, o trem acaba sendo uma alternativa mais prática para quem precisa atravessar longas distâncias diariamente.
Essa escolha também está relacionada aos horários de funcionamento e à redução da circulação de determinadas linhas de ônibus em períodos noturnos, principalmente em regiões afetadas pela violência urbana. Há ainda a possibilidade de integração tarifária proporcionada pelo Bilhete Único, que permite ao passageiro realizar determinados deslocamentos utilizando mais de uma condução dentro das regras do sistema. Mas existe um grupo para quem o trem representa ainda mais do que praticidade: as pessoas com deficiência.
É justamente aí que surge uma das maiores contradições que encontro diariamente. O trem é, ao mesmo tempo, um dos meios de transporte que mais utilizo e um dos que mais apresentam desafios quando o assunto é acessibilidade. As dificuldades aparecem em diferentes momentos: nas plataformas, nos acessos às estações, no embarque, no desembarque e na circulação dentro de algumas unidades. Em diversas estações, especialmente aquelas mais afastadas da região central, ainda encontramos estruturas que dificultam a autonomia de pessoas com deficiência, idosos e pessoas com mobilidade reduzida. Ainda assim, existe algo que transforma completamente a experiência de viajar de trem: as pessoas.
Os trens do Rio partem da Central do Brasil e se distribuem pelos seus diferentes ramais, conectando a capital fluminense a diversos bairros das Zonas Norte e Oeste e a municípios da Baixada Fluminense. É uma extensa rede que faz parte da rotina de milhares de trabalhadores e estudantes todos os dias. E, no meio dessa imensa estrutura, existe uma outra rede que não aparece nos mapas: a rede de solidariedade formada por passageiros, trabalhadores e camelôs. É essa rede que, muitas vezes, faz a diferença entre conseguir ou não realizar uma viagem com segurança. Quando entro em uma estação, sei que posso encontrar profissionais preparados para me orientar. Mas também sei que, quando eles não estão por perto, alguém provavelmente vai aparecer para ajudar.
Já aconteceu de eu não encontrar um agente de controle ou um funcionário disponível para me auxiliar no embarque ou no desembarque. Nessas situações, já vi camelôs deixarem suas próprias bancas para me acompanhar e orientar. Quando não conseguem continuar, pedem ajuda aos passageiros e, dessa forma, uma pessoa passa a responsabilidade para outra até que eu consiga chegar ao meu destino.E não acontece somente comigo. Já presenciei situações em que camelôs, funcionários e passageiros se uniram para auxiliar idosos e pessoas em cadeiras de rodas em estações que não possuem estrutura adequada. Em alguns casos, pessoas precisam ser carregadas pelas escadas para conseguir chegar à plataforma ou sair dela. Reconheço que essa situação está longe de ser a ideal.
Nós, pessoas com deficiência, queremos autonomia. Queremos poder entrar, circular e sair de uma estação sem depender de alguém para fazer aquilo que deveria ser possível realizar de forma independente. Mas, ao mesmo tempo, não consigo ignorar o lado humano dessas situações. Eu gosto dessa solidariedade. Gosto de poder conversar com essas pessoas, ouvir suas histórias e conhecer um pouco mais daqueles que, mesmo sem me conhecerem, dedicam alguns minutos do próprio dia para me ajudar. Foi assim que fiz amizades. Pessoas que conheci em plataformas, dentro das composições e durante caminhadas pelas estações acabaram entrando na minha vida. E algumas delas, tenho certeza, levarei comigo por muitos anos. Mas a solidariedade não pode substituir acessibilidade.
O Decreto Federal nº 5.296, de 2 de dezembro de 2004, estabelece regras de acessibilidade e determina que os sistemas de transporte coletivo devem garantir condições de utilização com segurança e autonomia para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. A legislação também estabelece que os sistemas metroferroviários e ferroviários devem ser acessíveis. Anos depois, a Lei nº 13.146/2015, conhecida como Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, reforçou esse direito. A legislação determina que veículos, estações e demais estruturas do transporte coletivo sejam acessíveis e assegura às pessoas com deficiência prioridade e segurança nos procedimentos de embarque e desembarque. No Rio de Janeiro, especialmente durante as grandes obras realizadas para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016, algumas estações receberam investimentos em acessibilidade. Entre elas estão estações como Maracanã, São Cristóvão, Engenho de Dentro, Madureira, Deodoro, Vila Militar e Bonsucesso.
Mas, olhando para a realidade que encontro diariamente, ainda existe uma distância considerável entre aquilo que está previsto na legislação e aquilo que efetivamente encontramos nas estações. Elevadores, escadas rolantes, pisos táteis e outros equipamentos precisam estar disponíveis e funcionando para que cumpram sua função. Não basta instalar um equipamento de acessibilidade. É necessário garantir sua manutenção e seu funcionamento. O piso tátil, por exemplo, representa uma ferramenta importante para pessoas cegas e com baixa visão. Porém, quando está danificado, solto ou incompleto, deixa de cumprir adequadamente a função para a qual foi instalado. E existe ainda um problema que considero particularmente preocupante: o vão entre o trem e a plataforma.
Em determinadas estações, o embarque e o desembarque exigem atenção redobrada por causa da diferença de altura e da distância existente entre a composição e a plataforma. Para uma pessoa com deficiência, um espaço que pode parecer pequeno para os demais passageiros pode representar uma barreira significativa. É nesse momento que os funcionários, passageiros e camelôs acabam sendo fundamentais. Nem sempre há um profissional disponível exatamente no momento em que preciso desembarcar. E é justamente aí que entra aquela rede de solidariedade que mencionei anteriormente. Mas não deveria ser assim.
A solidariedade das pessoas é bonita. A necessidade de depender dela para superar uma barreira que poderia ser eliminada por meio de infraestrutura adequada, não. Por isso, quando comparo minha experiência nos trens com a experiência nos ônibus, encontro uma contradição. Mesmo enfrentando problemas de acessibilidade, considero o trem um transporte mais acolhedor para mim. Não porque sua estrutura seja perfeita, mas porque existe uma combinação entre profissionais, passageiros e trabalhadores que torna a viagem mais humana. E é justamente por reconhecer isso que também acredito que precisamos cobrar melhorias.
Minha primeira reivindicação é simples: que sejam disponibilizados mais profissionais preparados para atuar diretamente no atendimento às pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. Também é fundamental que os equipamentos de acessibilidade existentes sejam mantidos em funcionamento. Elevadores e escadas rolantes não podem depender da presença de um funcionário para serem utilizados. O profissional deve estar ali para auxiliar o passageiro quando necessário, e não para substituir uma estrutura que deveria funcionar de maneira independente.
Também precisamos ampliar a acessibilidade para mais estações. Grande parte das pessoas que depende diariamente dos trens vive justamente nas regiões periféricas da cidade do Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense. São pessoas que trabalham, estudam, cuidam de suas famílias e precisam se deslocar diariamente. A acessibilidade, portanto, não pode estar concentrada apenas em algumas estações consideradas estratégicas. Ela precisa acompanhar quem utiliza o sistema todos os dias. E existe ainda um último ponto que não poderia deixar de mencionar.
Quero agradecer aos profissionais da Trens RJ e, especialmente, aos trabalhadores terceirizados que encontro diariamente nas estações. São pessoas que, muitas vezes, estão na linha de frente de uma situação que não criaram. São eles que ajudam, orientam, acompanham e fazem o possível para que a viagem de uma pessoa com deficiência aconteça da melhor maneira possível. Por isso, também precisamos falar sobre a valorização desses trabalhadores. Não existe transporte público de qualidade sem profissionais respeitados, valorizados e com condições adequadas para exercer suas funções. No fim das contas, essa é a grande contradição dos trens do Rio.
Temos um sistema que ainda apresenta inúmeras barreiras de acessibilidade, mas que, ao mesmo tempo, me proporcionou algumas das experiências mais humanas que já vivi no transporte público. O trem me mostrou que acessibilidade não é favor. É direito. Mas também me mostrou que, enquanto esse direito não é plenamente garantido, a solidariedade das pessoas pode transformar uma viagem difícil em um momento de encontro, conversa e amizade. E talvez seja justamente por isso que eu chame os passageiros, os trabalhadores e os camelôs que encontro diariamente de uma família. Uma família que não deveria precisar carregar ninguém pelas escadas. Uma família que não deveria precisar improvisar aquilo que deveria estar garantido. Uma família que, acima de tudo, merece um sistema ferroviário verdadeiramente acessível. E é a vocês, trabalhadores terceirizados e profissionais da Trens RJ, que dedico esta edição da minha coluna. Obrigado por, todos os dias, ajudarem a tornar possível aquilo que deveria ser garantido pela própria estrutura do transporte. Nos vemos na próxima semana.








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