Toda prática esportiva causa estranheza aos olhos de quem não se importa
- Comunica Uerj

- 28 de out.
- 4 min de leitura
Reflexão sobre o valor de cada esporte surge após vitória de Ramon Dino no Mr. Olympia
Por Luis Felipe
Reprodução: X WWE

Em uma conversa despretensiosa com outra colunista deste portal, acabamos debatendo o que torna um esporte atraente ou não. Ela, que havia acabado de escrever uma matéria sobre a marcha atlética — um belo exemplo de modalidade que causa estranheza a olhos não acostumados às suas nuances —, me indagou: “Você considera x modalidade um esporte?”. Eu, após enchê-la de argumentos e percepções próprias, refleti: será que não estou reproduzindo o mesmo discurso de desvalorizar algo que não consumo, como o que ocorre comigo quando falo que gosto de luta livre?
No dia 11 de outubro, o fisiculturista Ramon Dino conquistou o primeiro título mundial para o Brasil na categoria Classic Physique, no Mr. Olympia, o maior campeonato de fisiculturismo do mundo. A recepção do público brasileiro à conquista do atleta foi mista, fomentando um debate sobre as condições extremas a que os praticantes do bodybuilding são expostos — e se essa prática se encaixa nas definições de esporte. O grande questionamento é: quem define o valor de cada esporte e o que se enquadra nessa definição?
Essas reflexões me levaram a ler intermináveis opiniões na internet e fragmentos de livros, até que me deparei com um artigo publicado na Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde, em 2006, pelo professor Valdir Barbanti, intitulado O que é esporte. Nele, o autor discorre sobre o quão arbitrária é essa definição e como, dependendo de quem argumenta, esportes tradicionais — como o automobilismo e o xadrez — poderiam não passar no crivo e deixarem de serem contemplados como desporto. Isso torna muito cômodo rebaixar esportes de nicho a nada.
Em busca de entender a perspectiva de quem cobre uma dessas modalidades frequentemente questionadas, entrevistei o jovem Rian Purificação, de 23 anos, um dos diretores do Império do Wrestling, portal que realiza coberturas sobre o universo do Pro-Wrestling — prática popular na América Central e pouco comentada no Brasil —, que mistura luta com aspectos teatrais. Rian salienta que se trata de um esporte extremamente lesivo e com alta demanda de treinamento para garantir a integridade física tanto do atleta quanto do adversário.
Ao abordar as críticas que colocam em xeque a legitimidade do Pro-Wrestling, o jovem explica que tudo começou com um grande mal-entendido. Segundo ele, no início das transmissões nacionais, os veículos de imprensa vendiam o produto como lutas reais para captar a atenção de um novo público. Com o passar do tempo, ao perceberem que se tratava de algo roteirizado, iniciou-se um processo de estigmatização pela grande mídia — o que evidencia o tamanho da influência dos canais de transmissão na construção do respeito por uma prática esportiva.
Rian ressalta que esses comentários negativos afetavam bastante no começo da jornada, sobretudo por partirem de pessoas que criticavam sem entender ao que estavam assistindo — com a mídia tradicional ajudando a cristalizar essa opinião. Com a recente chegada da WWE, empresa de luta livre, à programação semanal da Netflix, o jovem diz que o interesse e a compreensão do público têm aumentado, reduzindo os ataques.
A mídia desempenha um papel fundamental na validação do esporte e de seus ídolos. Ayrton Senna, por exemplo, pilotou em uma época em que a televisão exercia forte influência na vida dos brasileiros e, por isso, há diversas análises sobre como sua imagem de herói nacional foi metodicamente construída utilizando os mecanismos midiáticos da época. Atualmente, ninguém contesta a idolatria do automobilista — e ela é cada vez mais reforçada pelos veículos tradicionais com o passar dos anos.
Retomando o título: toda prática esportiva causa estranheza aos olhos de quem não vê. Pela ótica de quem não assiste, uma partida de futebol poderia ser descrita como 22 pessoas correndo atrás de uma bola — o que não seria aceito, tendo em vista a popularidade da prática. Quando abordamos o campeonato vencido por Ramon, notamos que, na tentativa de minimizar o valor da conquista do brasileiro, uma enxurrada de internautas questionaram o caráter esportivo do fisiculturismo, alegando que se tratava apenas de “seres humanos injetando hormônios, prejudicando a saúde e fazendo poses estranhas de roupa íntima”. Não seria a mesma injustiça que resumir o futebol como no exemplo anterior?
Um dos momentos mais celebrados da última Olimpíada foi o ouro inédito de Rebeca Andrade. Entretanto, quantas discussões sobre a saúde física da atleta foram levantadas nesse período? A mesma Rebeca, que passou por três cirurgias no mesmo joelho, confirmou, em 2025, durante o Rio Innovation Week, sua aposentadoria no solo para preservar o corpo e garantir uma carreira mais longa. O que diferencia levar o corpo ao limite dessa forma — treinar com lesões graves que afetam diretamente a qualidade de vida no futuro — do que é feito pelos bodybuilders? Seria a validação midiática desses sacrifícios pelo sonho olímpico?
É impossível metrificar o valor de cada esporte. Ainda mais porque, ao ser julgada pelo olhar do desconhecido, qualquer modalidade pode ser subvertida ao status de boba ou prejudicial à saúde. Só respeitamos o esporte que gostamos porque o conhecemos — e, assim, conseguimos enxergar a emoção que ele desperta.
Ramon Dino, como qualquer outro atleta de esportes mainstream, assumiu riscos, entregou um pouco de sua vida por amor ao que faz e colocou seu nome na mente de jovens que acompanharam sua dedicação. Levantar preocupações com a saúde para não reconhecer o feito do acreano é tentar chancelar o valor de uma modalidade com base apenas na frequência de sua exibição em grandes veículos e em sua aceitação pelo público.
Então, respondendo à pergunta feita no começo da coluna: sim, estava reproduzindo o mesmo discurso. Compreender algo em sua totalidade para poder opinar é um privilégio que poucas pessoas terão durante a vida e, como jornalista, é extremamente necessário não replicar discursos com potencial de estigmatizar o desconhecido — pois, como foi discorrido na matéria, a mídia tem um papel poderoso na construção de valores.








ótima reflexão sobre esportes e os esforços físicos que cada atleta passa ☝🏻