Terça interrompida
- Comunica Uerj

- 4 de nov.
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Como tantos cariocas, alunos da Uerj enfrentam dificuldade em voltar para casa em meio à operação policial mais letal da história do Rio.
Por Alexandre Augusto
Terça interrompida

A última terça-feira (28) começou como um dia comum na Uerj. O feriado do Dia do Servidor Público havia sido transferido para a sexta-feira (31), e o campus seguia em pleno funcionamento, com aulas, oficinas e conferências na agenda. Mas a normalidade durou pouco. Nas primeiras horas da manhã, uma operação conjunta das polícias civil e militar foi deflagrada nos Complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio.
Às 13h48m, o Centro de Operações do Rio emitiu um alerta: a cidade entrava em Estágio 2, nível que indica risco de ocorrências de alto impacto. Cerca de 70 ônibus foram sequestrados por integrantes da facção Comando Vermelho e usados para bloquear ruas em bairros das Zonas Norte e Sudoeste. Considerando as informações oficiais que indicavam restrições na mobilidade urbana por causa das vias interditadas em vários pontos da cidade, a reitoria da Uerj divulgou um comunicado interno encerrando o expediente e liberando estudantes e trabalhadores.
Entre eles estava Gustavo Fontenelle, morador de Padre Miguel e estudante de Relações Públicas. Ele e um grupo de colegas decidiram deixar o campus Maracanã mesmo após o alerta da prefeitura. O raciocínio era claro: quanto mais o tempo passasse, mais difícil seria voltar para casa. “Se em um dia normal já é complicado, em um dia como esse seria pior”, explicou.
A sensação era de insegurança. “Estar longe de casa numa situação de perigo, com as opções de transporte se esgotando, é terrível”, disse. O grupo seguiu a pé até a estação Maracanã da SuperVia, onde aguardou o trem por cerca de meia hora. De repente, viram homens encapuzados vindo da estação Mangueira/Jamelão, armados com pedras. Era o início de um arrastão. “Vimos os seguranças descendo enquanto subíamos as escadas correndo. A gente ouviu tiros, pessoas gritando, um caos”, lembrou Gustavo.
Com medo, os estudantes mudaram o trajeto: pegaram o metrô e depois um ônibus até a Taquara, onde Gustavo combinou de encontrar a mãe. O percurso, que costuma durar cerca de uma hora, levou cinco. O aluno chegou em casa às 19h40m. “Ainda bem que deu tudo certo”, contou aliviado.
Enquanto ele e milhares de cariocas tentavam voltar para casa, a Secretaria Estadual de Segurança Pública divulgou o primeiro balanço da operação. Ao fim da noite, os números já impressionavam: 93 fuzis apreendidos, 81 pessoas presas e 64 mortos – entre eles, dois policiais civis e dois militares. Os dados iniciais indicavam que se tratava da ação policial com o maior número de vítimas já registrado no Rio.
Na manhã seguinte, a tragédia se revelou mais intensa. Moradores da Penha encontraram novos corpos em áreas de mata e passaram a reuni-los na Praça São Lucas, na entrada do Complexo da Penha. O número de mortos chegou a 121.
Enquanto o governador Cláudio Castro classificou a operação como um “sucesso”, especialistas em segurança pública e cientistas políticos criticaram a falta de coordenação com o governo federal e o alto custo humano da ação, que passou a ser chamada de chacina por diversos analistas.
Entre as vozes críticas está o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF), responsável pelo Mapa Histórico dos Grupos Armados. O coletivo questiona a eficácia de políticas baseadas em operações policiais em favelas, consideradas ineficientes por não reduzirem a criminalidade e gerarem graves impactos sociais. O grupo defende o fortalecimento dos controles democráticos sobre a atividade policial e o redirecionamento de esforços estatais para o combate inteligente ao crime.
No Congresso, parlamentares também reagiram. A deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) condenou a operação e afirmou que não pode ser natural a polícia entrar em um território para fazer uma operação a céu aberto, colocando milhares de famílias em pânico e estudantes fora da escola.
Medo, impotência e insegurança marcaram o retorno de Gustavo para casa. Seu relato, porém, é apenas um recorte do que milhares de moradores do Rio enfrentaram naquele dia. Nos bairros diretamente atingidos pelos confrontos, os flagelos foram ainda mais intensos: famílias viveram sob o risco constante da violência e se depararam com a cena desesperadora de corpos expostos na praça.
A Uerj suspendeu as atividades nos dias 28 e 29 para garantir a segurança da comunidade universitária, retomando as aulas na quinta-feira (30). Ainda que o retorno tenha ocorrido, a normalidade parece distante.
Depois da operação policial mais letal da história do Rio, a rotina voltou – mas a dúvida permanece: alguém crê que o Comando Vermelho foi desarticulado e o Rio está mais tranquilo?








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