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Olhos de harpia, audição de coruja e coração de mãe

  • Foto do escritor: Comunica Uerj
    Comunica Uerj
  • há 4 dias
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

As vivências de um julgador se constroem muito além da cabine na avenida


Por: Carlos Roberto


Entre os dias 10 e 14 de novembro foi realizado o III Seminário Sambavivências, no auditório 71, da Faculdade de Direito, e na sala 9042 F, da Faculdade de História. Uma semana inteira de debates e oficinas voltadas para a reflexão do samba como instrumento de identidade cultural, de educação e cidadania. Quem me dera pudesse ir a semana toda, mas um único dia foi o suficiente para ver o valor imensurável empregado pelo amor, pela força e pela dedicação de quem faz a maior festa popular acontecer. Eu queria assistir à mesa Julgamento, a terceira das quatro mesas-redondas, mas confundi a data porque o cartaz apresentou quarta-feira como dia 13, mas na verdade era quinta-feira, conforme consta no nosso calendário. Seria um belo processo semiótico o fato de, justamente em uma quarta, a mesa dos jurados ocorrer. Mas o evento deu uma pausa neste dia.




Reprodução: arquivo pessoal/ Carlos Roberto

Ensaio da Unidos de Vila Isabel, no Boulevard 28 de Setembro
Ensaio da Unidos de Vila Isabel, no Boulevard 28 de Setembro

Retorno para casa ligeiramente triste, em meio a um trânsito caótico, mas a tristeza logo acabou quando o motivo do caos foi por causa do ensaio da Vila Isabel. Com direito a queima de fogos nas cangalhas instaladas na Teodoro da Silva, e os carros de som contaminando o Boulevard da 28 de Setembro, o bairro viveu uma noite de desfiles. Assim como um treino é uma fração de uma competição, os ensaios foram um terço da Sapucaí. Nada mais justo do que o seminário ocorrer nas datas que coincidem com os ensaios das escolas. A Mangueira e o Salgueiro, por exemplo, já estavam fazendo suas preparações. O carnaval é o ano todo e, estas escolas, por estarem geograficamente próximas à Uerj, abraçam simbolicamente os espaços, tendo em sua comunidade muitos líderes, sambistas, pesquisadores, torcedores e admiradores do samba e dos desfiles.


E, finalmente na quinta-feira, dia 13, assistimos à mesa mediada por Jackeline Nascimento, professora de Sociologia e História, que esteve ao lado de Bruno Marques, jurado de harmonia, e Arthur Melo, que julga o enredo. As histórias dos bastidores são avassaladoras. O jurado está para o carnaval o que o árbitro está para uma partida de futebol. Ambos sofrem muito. Bruno conta que prefere ficar na cabine simples justamente para evitar ter de fazer aquela famosa saia-justa da cabine dupla, pois as críticas são bem acintosas: “Como os jurados deram notas diferentes se estavam na mesma sala?” Arthur confirma essa ideia, relatando que já ouviu muitos xingamentos quando dividia a cabine. Realmente, o melhor é ficar quieto no seu canto. Jackeline deu sonoras risadas ao ter sua dúvida, que gerava certa inquietude, respondida de forma brilhante e ao mesmo tempo cômica. Outra curiosidade, vinda de um dos ouvintes: foi sobre o valor que eles recebem. Bruno preferiu não falar, e brincou quem quisesse saber, bastava procurar porque a informação é pública. Mas Arthur adiantou os trabalhos: o salário médio gira em torno de R$ 5 mil reais. Onde me inscrevo no curso para ser jurado?


Do ponto de vista técnico, o carnaval é uma disputa duríssima. Para a harmonia, é preciso estabelecer um crivo sob o conjunto musical, o som deve atravessar nossos ouvidos como atravessa a avenida: de forma harmoniosa e concisa. A bandeira da escola deve ser defendida através do canto. O tópico carrega uma certa beleza, mas ao mesmo tempo um peso e uma responsabilidade tanto para o júri quanto para os intérpretes. Há de se ter audição de coruja para extrair o máximo possível da energia e interação dos defensores da flâmula. É como canta o Fundo de Quintal: o samba é a alta bandeira.

Com olhos de harpia, Arthur precisa observar desde o ponto de partida as métricas como clareza, coerência, coesão, criatividade e, sobretudo, a realização. Quanto à localização estratégica para avaliar o quesito, descer da cabine seria um desastre porque atrapalha a visão das fantasias e, consequentemente, seria um pecado para o trabalho dos engenheiros das alegorias e dos adereços. A carnavalização do tema, termo bastante aplicado na fala, infere a simplicidade dos carnavalescos em detrimento da suntuosidade. Nem tudo que está lindo, luxuoso e pomposo tem chances de ganhar. É preciso casar com o que está sendo proposto. Mas como podemos ser extremamente técnicos se estamos julgando arte? A dor de descontar alguns décimos que podem ser cruciais no final, mesmo sabendo que teve um trabalho ali. Por isso deve-se eticamente apontar o problema, respeitando os artistas e a comunidade. É como um coração de mãe, que reluta em dar bronca no filho, mas sendo necessário, que seja feito. A subjetividade não deve valer apenas para o julgador. O carnavalesco deve entregar a alma junto à sua agremiação, pois a festa é exclusivamente deles. Retomando a analogia com o futebol, é como aquele árbitro que deixa o jogo rolar, ficando longe dos holofotes e apitando com isonomia para ambas as equipes.


Chegando aos blocos de perguntas, não me apresentei ao palco porque enquanto estava formulando as questões, parte da coluna já estava sendo escrita. Mas depois do momento das fotos, dirigi-me ao Arthur e fiz apenas duas perguntas, já imaginando que receberia uma aula de História, de Sociologia e, sobretudo, de humanidade. Conduzindo o percurso a partir da visão da escrevivência, de Conceição Evaristo, que também remete ao nome do seminário, aproximei o pensamento coletivo proposto na escrita dela, e a subjetividade de um julgador. De alguma forma eles se encontravam, só não sabia como. Depois da resposta, tudo ficou evidente: a formação técnica e antropológica em cultura indígena, de matrizes afro-brasileiras e vivências do carnaval não o faz o artista. Cabe ao julgador fazer a análise que é feita por pedido dos verdadeiros artistas. Mas se ele não domina os conhecimentos básicos da cultura brasileira, ele não vai julgar enredo. Em janeiro de 2003, foi aprovada a Lei 10.639, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira no currículo oficial da rede de ensino. Mais de duas décadas se passaram e muitos professores ainda não praticam uma educação antirracista e não se aprofundam na história negra. Esse reflexo atinge também as universidades e outras áreas, como a do júri do carnaval. Muitos descontos de notas ocorrem por avaliações rasas e enviesadas, como a de uma jurada que apontou “excesso de termos de difícil compreensão” para as expressões em iorubá no enredo da Unidos de Padre Miguel. É de fundamental importância o letramento, a pesquisa e a contextualização para avaliar uma festa de natureza afro-brasileira. Abençoado seja o trabalho desse jurado, que chegou a firmar parceria com Lélia Gonzalez como assistente de pesquisas e assessor nas questões políticas. A linguagem do samba não é ocidental, tem marcas da africanização no nosso português falado, definido como pretuguês. Impugnar a prosódia e a expressividade é negar a história de lutas e de denúncias dos problemas políticos, econômicos e sociais que afetam as populações negras e periféricas.


Sambavivências mostra que a educação também passa por todas essas perspectivas presentes no samba. Ao analisar o mundo à nossa volta como um jurado, coração, olhos e ouvidos se aguçam para materializar nossa cidadania, propondo uma visão crítica e construtiva dos espaços e dos cenários.




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