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Sob os Arcos do Piseiro: João Gomes e o preço da festa carioca

  • Foto do escritor: Comunica Uerj
    Comunica Uerj
  • 4 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

O ritmo ganhou o Rio no dia em que João Gomes fez história na Lapa, mas deixou uma ressaca que diz muito sobre a forma como a cidade trata sua cultura popular.


Por Beatriz Barbiere



Reprodução: COMUNICA UERJ


No último domingo (26), o coração boêmio do Rio bateu no compasso do piseiro. Sob os Arcos da Lapa, João Gomes, aos 23 anos, gravou seu segundo DVD diante de uma multidão — uma festa aberta, gratuita e com a ambição de consolidar o ritmo pernambucano na história da música brasileira. E conseguiu: foi uma celebração popular, arrebatadora, que misturou sotaques, gêneros e emoções. Mas, como quase toda grande festa, teve seu preço.


Dominando os Arcos, o palco impressionava pelo tamanho e pelas projeções em LED que transformavam o cenário em um mosaico de calçadão carioca, praia e paisagens do sertão. Era um espetáculo de luzes que competia com o brilho da própria cidade. Cada faixa do projeto foi pensada para manter o público num transe festivo, com refrões pegajosos, viradas que arrepiaram e uma produção que não deve nada a megashows de arena. O piseiro virou coro coletivo, e o Rio, por uma noite, dançou com o Nordeste.


Entre os convidados, a mistura de mundos musicais simbolizou a força do encontro: Zeca Pagodinho, Ivete Sangalo, MC Cabelinho, BK, L7nnon, Ruan Vaqueirinho e tantos outros mostraram que o piseiro cabe em qualquer batida. João, que já conquistou o país cantando sobre amor, trabalho e fé, parece agora mirar um novo território: o da memória cultural.


Mas o cenário por trás do brilho do palco também diz muito. Para que o show fosse viabilizado, uma verdadeira operação foi montada: interdições de trânsito em mais de dez vias da Lapa, novas câmeras de segurança, reforço de iluminação e uma logística coordenada por diferentes órgãos públicos. O evento mobilizou a Prefeitura, a Polícia Militar, patrocinadores e uma estrutura de megaevento, mas, dessa vez, sem área VIP. Um gesto simbólico que parecia devolver os Arcos ao povo.


Enquanto cerca de 50 mil pessoas, segundo estimativa da Riotur, dançavam sob o monumento, 82 famílias ficaram de fora da festa. São os trabalhadores da Feira Gastronômica Noturna da Lapa, que há 16 anos ocupam regularmente o entorno dos Arcos, oferecendo comida, bebida e artesanato. Justamente eles, que sempre pediram mais movimentação cultural, foram proibidos de montar suas barracas durante o evento nos espaços que sempre ocuparam.


A Feira, criada em 2009, divulgou nas redes sociais, no dia 21, um vídeo denunciando o impedimento. André, presidente da associação dos trabalhadores informais, resumiu em uma frase a indignação coletiva: “Só queremos trabalhar”. O pedido era simples: participar da festa. Mas, a resposta veio na contramão da história: Eduardo Paes, o mesmo prefeito que implantou a Feira, acabou afastando os trabalhadores para a Praça Deodoro, a poucos quarteirões do show. A ressaca, ali, veio antes do último acorde.


O contraste é gritante. O evento que celebrou um artista de origem popular, que canta para e sobre o povo, acabou reproduzindo a lógica de exclusão que ainda separa quem consome cultura de quem a produz. O piseiro — símbolo de um Nordeste que venceu o preconceito e conquistou o mainstream — soou alto nos Arcos da Lapa, mas os trabalhadores da feira, também parte da cultura popular, ficaram no silêncio da ausência.


Em nota, a Feira Gastronômica Noturna da Lapa reforçou seu papel histórico como fomentadora de cultura, turismo e economia local, lembrando que há mais de uma década gera renda para dezenas de famílias que dependem daquele espaço. A associação também reiterou suas reivindicações pela revitalização da Lapa, com melhorias na infraestrutura e no reconhecimento oficial da feira como patrimônio cultural da cidade do Rio de Janeiro. Esse é um passo essencial para que o bairro volte a ser, de fato, um centro vivo da cultura popular carioca.


O Rio tem uma relação antiga com o forró. Desde os bailes suburbanos às casas de show da Zona Norte, o gênero sempre encontrou terreno fértil por aqui. Nos Arcos, essa mistura ganhou dimensão nacional, mas também escancarou as tensões de uma cidade que ainda valoriza mais o brilho do palco do que a base que o sustenta. Como carioca e fã, foi impossível não se emocionar ao ver João Gomes transformar a Lapa em um grande arraial. Mas, quando as luzes se apagaram, ficou a pergunta que insiste em ecoar: a cultura popular realmente saiu fortalecida? Porque se o piseiro fez história no coração do Rio, é preciso lembrar que, nessa história, nem todo mundo pôde dançar.


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