De dia de um jeito, à noite de outro: como os uerjianos sambistas lidam com a mudança de rotina no pré Carnaval.
- Comunica Uerj

- 11 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Por: Rayane Barreto
Foto: Arquivo pessoal

Durante o dia, eles dividem as atenções entre provas, TCCs e trabalhos acadêmicos. À noite, trocam os livros pela bateria, pelo salto e pelas grandes fantasias. Às vésperas do carnaval, os uerjianos sambistas vivem uma rotina dupla que mistura o ritmo intenso da vida acadêmica com o compasso do samba.
O cansaço é só mais um instrumento de sentido, a prova de que a rotina ganha forma quando é movida pelo amor ao carnaval. As madrugadas são atravessadas por ensaios de quadra, de rua, eventos das escolas e tantas outras vivências que, somadas às manhãs de aula e trabalho, criam uma rotina que exige malabarismo.
Em entrevista ao COMUNICA, Madu Queiroz, atualmente no 6º período do curso de Turismo, conta que desfila por três escolas de samba. A jovem, cria de Duque de Caxias, desfila pela Grande Rio, sua escola de comunidade, como passista; pela Botafogo Samba Clube, representando seu time de coração, também na ala de passistas; e pelo Império Serrano, integrando a comissão de frente. “Foi no chão de Madureira que eu comecei minha jornada com o samba”, relembra.
Conciliar a rotina acadêmica com a vida nos ensaios não é tarefa fácil. Madu conta que o maior desafio é ajustar os horários entre a universidade e o samba.
“A parte mais difícil de equilibrar é o fato de estudar à noite e os ensaios baterem com os horários de aula. Nessa época, eu evito puxar matérias à noite, mas acaba sendo um corre-corre: ter aula à tarde, jantar no bandejão e me montar pra ir direto pra quadra”, relata.
A quadra e o chão da comunidade são os pontos de equilíbrio, é o lugar onde as preocupações se dissolvem ao som da bateria e o corpo reencontra o ritmo da alegria, em forma de riscado. Para muitos, o samba é mais do que uma paixão, é um espaço de pertencimento, onde se aprende sobre força, comunidade e identidade. Ali, cada ensaio é também uma aula de vida.
“O samba resgatou minha autoestima enquanto mulher negra e me ensinou muito sobre resiliência, persistência, disciplina e determinação. Comecei em 2022 e, no início, achava que já sabia tudo, mas percebi que aprender com as aulas e trocar experiências com os colegas é muito enriquecedor. Além disso, o samba me reconectou com minhas origens: quando criança, acompanhava os desfiles pela TV, mas nunca tinha participado de forma efetiva de todas as atividades que acontecem durante o ano, até o grande dia do desfile” conta Laura Machado, estudante de jornalismo e passista do Paraíso do Tuiuti.
O ritmo intenso do pré-carnaval não é para qualquer um, mas esses estudantes parecem encontrar energia mesmo nos dias mais puxados. Entre provas, trabalhos e ensaios, eles desenvolvem estratégias próprias para manter o fôlego e o ânimo.
“Costumo dividir os dias da semana, reservando um dia para cada função. Se você tentar puxar todas as matérias de todos os horários, fazer outras atividades e ainda trabalhar com o carnaval, com certeza vai enlouquecer. Como faço parte da comissão de frente, tem sido mais fácil me organizar, já que os ensaios acontecem após as aulas”, conta Madu.
E quando chega o momento de refletir sobre tudo que viveram, a experiência se transforma em aprendizado, paixão e história. O samba e a universidade coexistem, mostrando que é possível equilibrar esforço e prazer, disciplina e arte, estudo e cultura.
Para Laura, viver esses dois mundos tão distintos é uma oportunidade de unir suas duas paixões: sambar e comunicar. “Sempre que posso, trago para o ambiente acadêmico toda a riqueza que a cultura do carnaval proporciona à população, não apenas no dia do desfile oficial. É importante resgatar as origens da maior festa a céu aberto do mundo, e ter a oportunidade de falar sobre isso em seminários, fotos e até no meu TCC é algo que me deixa extremamente feliz. Sinto que estou sendo responsável por expandir os horizontes sobre a cultura do carnaval, que ainda é tão pouco valorizada dentro da universidade”, relata
No fim, o que fica é a certeza de que o coração que bate no compasso do samba também aprende a pulsar no ritmo da vida acadêmica, e que, para esses estudantes, cada ensaio, cada aula e cada desafio são parte de uma narrativa maior: a de quem escolheu viver com intensidade, paixão e ritmo, do amanhecer à madrugada.








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