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Foto do escritor: Comunica Uerj
Comunica Uerj
há 4 dias
4 min de leitura

Clubes brasileiros se posicionam contra medida provisória e dão vexame em assunto de saúde pública


Por: Matheus Espíndola 



Reprodução/Internet

 Manifesto dos clubes brasileiros contra a proibição de apostas esportivas


Recentemente, as apostas esportivas, popularmente conhecidas como bets, voltaram ao debate público depois que o presidente Lula assinou uma medida provisória que proíbe as apostas e jogos online, como o “jogo do tigrinho”. A medida foi publicada no dia 25 de setembro e passou a ter valor imediato. Os sites de apostas tiveram até dia 6 de outubro para saírem do ar e retirarem propagandas. Entre as justificativas do governo estão a questão da saúde pública, ao identificarem no vício em apostas um perigo tão grande quanto outros tipos de vícios, como álcool e drogas; além da questão econômica, tanto pela diminuição do consumo de quem aposta, quanto pelo custo que o governo tem com as pessoas viciadas em apostas.


Imediatamente o mundo do futebol — clubes, torcidas, influenciadores e jornalistas —  reagiram à discussão, antes mesmo de a MP ser publicada. A maioria dos clubes se colocaram contra a medida e iniciaram a campanha “Proibir não é proteger” e divulgaram o manifesto “O fim do futebol brasileiro”, em que alegam que a proibição imediata não traz nenhum benefício às pessoas e ainda abre espaço para o mercado ilegal e desregulamentado de apostas. Outra peça desse quebra-cabeça interessada no assunto são os influenciadores digitais, figuras conhecidas, muitas vezes ligadas a um clube específico, que trabalham na internet e que recebem valores de patrocínio dessas casas de apostas. Além disso, muitos jornalistas também podem ser incluídos nos beneficiados pelo dinheiro das bets. Trazendo valores: em 2025, 36% das receitas de marketing dos maiores clubes do país vieram dessas casas de apostas. Esse valor ultrapassa R$ 1 bilhão. Portanto, não é surpresa a reação coordenada desses entes contra a MP.


Contudo, chama a atenção deste colunista a reação exagerada do presidente do Flamengo, Luis Eduardo Baptista, o Bap. O dirigente do rubro-negro carioca, time com maior receita do futebol brasileiro, que em 2025 ultrapassou o valor de R$ 2 bilhões, brada aos quatro ventos sobre o impacto financeiro no futebol brasileiro desde que a caneta do presidente da República assinou a probição das apostas. Segundo o dirigente, o futebol brasileiro deve perder milhões em receitas, o que afetaria dívidas, contratos e no nível do campeonato. Nas palavras dele: “Nós (o Flamengo) não temos condições, hoje, de honrar os compromissos que nós assumimos baseados em contratos legais.”


O espantoso nessas reações de dirigentes e clubes é perceber como o que podemos definir como “era das bets” no nosso futebol demonstrou mais uma vez a péssima gestão que os clubes fazem do dinheiro. É inegável que esses patrocínios elevaram os valores de arrecadação e permitiram que os clubes fizessem movimentos mais ousados no mercado, inclusive inflacionando valores de salários e contratos de jogadores. Dessa forma, o natural seria que temessem mesmo ao ver a torneira se fechando. O que é curioso é se perguntar por que ao invés desses clubes aumentarem seus gastos eles não decidiram diminuir sua própria dívida. Por que não aproveitaram que o dinheiro estava entrando em maior quantidade e não o usaram para tentar honrar compromissos financeiros já existentes ao invés de fazerem novos? Visto que o dinheiro das bets, apesar de vir em abundância, sempre deveria ter sido tratado com cautela, devido à grande possibilidade de acabar, dado que realmente aconteceu.

E essa pergunta também se direciona ao presidente Bap, pois mesmo o Flamengo sendo um clube que honra suas dívidas, fica o questionamento se essa dependência do dinheiro vindo de apostas foi uma boa gestão financeira dos recursos do clube. Por esse motivo, provavelmente, temos visto um movimento muito grande do Flamengo se posicionando contra a MP, seja em forma de posts nas redes sociais ou com o uso da frase “Proibir não é proteger” na frente da camisa durante os jogos. A ação faz parte da campanha liderada pela Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) contra a MP.


É nítido o uso do clube para os fins políticos de seus dirigentes. Na partida entre Flamengo e Fluminense, no último dia 11, faixas foram exibidas na torcida rubro-negra com os dizeres: “O futebol brasileiro não pode ser vítima desse gol contra. Lula, Congresso e STF.” Fica a pergunta: Quais interesses estão sendo representados?  Quão orgânicos são esses protestos? As críticas estendidas ao presidente Lula e ao STF justamente em um momento tenso entre os dois turnos das eleições também chama a atenção sobre o uso político da torcida e da imagem do Flamengo.


Crédito: Divulgação/Fluminense

 Flamengo e Fluminense pelo Brasileirão com a campanha “Proibir não é proteger”


No fim das contas, para este colunista, é um vexame o papel prestado por clubes brasileiros, mas principalmente pelo Flamengo e seus dirigentes, que fazem vista grossa à questão mais importante que deveria estar em debate, que é a saúde de brasileiros viciados em apostas esportivas. Ao Flamengo não interessa se seu torcedor está gastando o dinheiro do fim do mês para apostar, interessa apenas que um clube bilionário não vai conseguir “pagar o Paquetá”, como bem disse seu presidente.

Para finalizar, é só mais uma demonstração de como o futebol e seus clubes têm se afastado cada vez mais de sua função social e têm se tornado empresas preocupadas com seus lucros e ganhos.


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