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Por último, a moda é política

Foto do escritor: Comunica Uerj
Comunica Uerj
há 5 dias
3 min de leitura

A edição 26.1 desta coluna termina no ponto que atravessa todos nós: a política


Por: Fernanda Rodrigues e Vitória Perez 


Ao longo deste ano, buscamos conversar com vocês, leitores, sobre nossos pontos de vista a respeito da moda. Falamos sobre seus diferentes formatos e apresentações em nossa sociedade, tanto no ambiente universitário quanto fora dele. Para além do vestir, podemos compreender a moda como um conjunto de hábitos, tendências e estilos que adotamos ao longo da vida. Ela também pode expressar valores, status, identidade e ideologia.


Diante disso, considerando o cenário recente de eleições no país, queremos acrescentar mais um retalho à colcha chamada moda: ela também é política.


Quando escolhemos uma peça de roupa, transmitimos mensagens sobre quem somos e no que acreditamos, mesmo que essa não seja nossa intenção. No campo político, por exemplo, podemos escolher determinadas cores, como o vermelho ou o verde e amarelo, para manifestar nosso posicionamento. E isso não é novidade.


Na década de 1960, os Panteras Negras, grupo que lutava pelos direitos civis da população negra nos Estados Unidos, adotaram roupas como jaquetas e boinas pretas. O visual ajudava a transmitir uma imagem de seriedade, força e resistência diante do racismo e da desigualdade social.


Reprodução: Acervo Stephen Shame

Comício dos Panteras Negras. Boinas, sobretudos e cabelo black compondo a luta por direitos.


No Brasil, também temos o exemplo de Zuzu Angel. A estilista usou a moda para expressar sua revolta contra a ditadura militar, especialmente após o assassinato de seu filho, Stuart Angel, durante o regime. Suas criações passaram a trazer referências ao luto, à violência e à repressão política.


Reprodução: Acervo Instituto Zuzu Angel

Zuzu Angel posa ao lado de modelo vestindo roupa da sua coleção.


Mas a relação entre moda e política não se limita à resistência. Na Itália da década de 1930, o regime de Benito Mussolini criou a Ente Nazionale della Moda (ENM), ou Organismo Nacional da Moda. Segundo a pesquisadora Eugenia Paulicelli, professora de moda italiana, a iniciativa buscava incorporar as ideias fascistas ao cotidiano, incentivando o uso de materiais nacionais e estabelecendo diretrizes para a produção de roupas. Ou seja, a moda também pode ser utilizada para reforçar os valores de um regime político.


E, como diria Cazuza, “o tempo não para”. A história continua sendo construída, e hoje encontramos outras formas de manifestação política, inclusive no âmbito da própria indústria da moda.


Um exemplo é a estética tradwife. Para quem olha rapidamente, ela pode parecer apenas um estilo que valoriza roupas tradicionais, românticas e campestres. No entanto, para além da aparência, esse movimento também está ligado a ideias sobre os papéis de gênero e a defesa de um modelo de sociedade no qual a mulher ocupa, principalmente, o espaço doméstico.


Dessa forma, é difícil afirmar que uma estética é completamente neutra. Afinal, a moda é criada e usada por nós, seres políticos, que fazemos parte de uma sociedade repleta de valores, ideias e conflitos. A não ser que você acredite estar fora de tudo isso só porque vota nulo.


Caminhando pelo décimo andar da Uerj, esta coluna entrevistou alguns estudantes sobre o tema. Aldrey de Oliveira, uerjiana de relações públicas, disse que, para ela, moda e política estão intimamente relacionadas. Segundo ela, a moda é uma forma de expressão pessoal e política, que revela o modo de ser de cada indivíduo. 


Arthur Tuig, também estudante de relações públicas da Uerj, concordou que a moda é política. “Eu fui votar de vermelho. Então, acredito que está muito relacionado, tanto que as pessoas utilizam uma determinada cor ou outra para indicar o posicionamento político”, contou. Além disso, ambos afirmaram que utilizam a moda para se expressar politicamente no dia a dia. 


Mas, afinal, o que não é político nas nossas vidas? É difícil apontar algo, já que vivemos em um mundo que compartilhamos. É fácil enxergar-se “por cima” disso ou à parte, acreditando em uma existência apolítica, supostamente alheia aos acontecimentos sociais – uma posição que pode ser, sem dúvida, confortável. 


Não estamos falando em tomar partido, mas de reconhecer que a política acontece o tempo todo e é impossível não ser afetado por essas questões. 


Por isso, olhe-se no espelho. O que você está vestindo hoje? Por que escolheu esta camisa ou este brinco? Veja o que está usando nos pés. Como essas escolhas se relacionam com quem você é na sociedade? 


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