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Pioneira em cotas, Uerj fica para trás na inclusão trans no Rio de Janeiro

Foto do escritor: Comunica Uerj
Comunica Uerj
29 de out.
3 min de leitura

A universidade que foi a primeira na política de cotas é a única pública do estado a não ter implementado cotas para pessoas trans, travestis e não binárias


Por: Lex


“O maior não que já recebi foi o não da minha existência”, disse a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) no talkshow Surubaum, apresentado por Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso, em 2025. A fala de Erika, que neste domingo (4) se tornou a mulher mais votada na história da Câmara dos Deputados, dá voz a uma verdade: o Brasil é o país que mais mata pessoas trans e travestis há dezoito anos consecutivos, segundo o dossiê anual da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), cujos dados são acompanhados pelos levantamentos globais da ONG internacional Transgender Europe (TGEU).


A Universidade Estadual Paulista (Unesp) estimou que a população transgênero brasileira representa 1,9%, o que corresponde a cerca de quatro milhões de pessoas. O estudo ouviu 6.000 pessoas em 129 municípios de todas as regiões do país. Ainda assim, um infográfico produzido pelo Grupo de Estudos Multidisciplinar de Ação Afirmativa (Gemaa) aponta que a presença de pessoas trans nas universidades federais do Brasil é de meros 0,3%.


Como forma de mitigar essa barreira de acesso de pessoas trans à universidade pública, surgiu a pauta de inclusão deste segmento no sistema de cotas. A Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) foi pioneira nessa implementação em 2018, e no Rio de Janeiro foi a Universidade Federal Fluminense (UFF) a primeira instituição a aprovar esta política no estado em 2024. Apenas 39 das 261 instituições públicas de ensino superior brasileiras implementaram a medida até hoje, entre elas: Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio); Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ); e a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). A Uerj permanece fora da lista.


Jojo Mattos, aluna de geografia da Uerj e militante da Rede Trans, conta que a emoção prevalente é de decepção com a própria universidade, que é frequentemente elogiada por ter sido pioneira na política de cotas. A ausência de cotas trans na Uerj também dificulta o acesso desses estudantes às políticas de assistência estudantil. Por exemplo, estudantes de ampla concorrência não podem obter a gratuidade no Restaurante Universitário, e caso sejam do campus Maracanã, também não podem solicitar o Auxílio Alimentação.


O problema vai além da ausência do Sistema de Reserva de Vagas para pessoas trans, que também acabam lidando com microviolências recorrentes: “Por exemplo, a gente vê muitos casos de nomes mortos aparecendo em alguma documentação da instituição. Teve casos de nome morto aparecer na lista do Enade”, relata Jojo, desabafando que esses casos chegam a ser desestimulantes. O “nome morto” se refere ao nome que não é mais usado pela pessoa trans.


Permanece, porém, a esperança. Jojo conta que a Rede Trans se mobiliza com outros coletivos da Uerj para fortalecer o diálogo com a reitoria em defesa da aprovação dessa pauta, e acredita que essa conquista representaria, além de um aumento da presença das pessoas trans na Uerj, uma melhora na qualidade de vida das pessoas trans, travestis e não binárias na universidade. “Acredito que é uma forma de justiça e também trará um pouco de esperança. E eu acredito que será uma grande vitória para todas nós.”


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