Estamos vivendo no conto da Aia?

Uma crítica e um desabafo sobre a atual situação dos direitos femininos no Brasil e no mundo
Por: Luana Maciel
Reprodução: Instagram

Na imagem, aias reunidas na série da Hulu, com a cabeça baixa em sinal de submissão e medo.
Eu me lembro de ter ouvido falar de O conto da Aia pela primeira vez quando a minha mãe começou a acompanhar a série televisiva, em uma época onde eu não tinha idade e nem discernimento para poder assistir. Anos mais tarde, ao prestar o vestibular para a Uerj, esse livro foi o escolhido como leitura obrigatória para a redação da prova. Foi assim que, aos 17 anos, me vi entrando nesse universo pela primeira vez.
O livro foi escrito pela autora canadense Margaret Atwood em 1985. A história acompanha um cenário distópico, no qual os Estados Unidos e partes da América do Norte sofreram um golpe de estado e passaram a obedecer um novo regime: o governo de Gilead, uma teocracia religiosa e militar. A primeira coisa que os golpistas fazem, na obra, é retirar os direitos das mulheres. Elas passam a pertencer a castas que determinam sua função naquela sociedade. A principal e mais dolorosa sendo a própria função de aia.
Por conta da poluição, muitas pessoas em Gilead tornaram-se inférteis. O governo, porém, atribui a culpa desse fato estritamente às mulheres e determina que as aias devem existir para assegurar a continuidade da reprodução no país. Assim, as aias são as mulheres designadas a essa função reprodutora. Vestindo sempre vermelho, sob vigilância contínua e obrigadas a suportar um ritual de reprodução que não passa de um abuso institucionalizado, essas mulheres vivem sem liberdade, sem poder de escolha e com menos autonomia do que um animal. E um dos fatos mais curiosos para mim, ao ler o livro pela primeira vez, foi o fato de que não eram só homens apoiando esse regime. As próprias mulheres da elite, as esposas do comandante, e as chamadas “tias” (mulheres que treinam e vigiam as aias), são, em Gilead, apoiadoras assíduas do sistema.
Quando ouvi falar dessa noção pela primeira vez foi quando a série saiu, em 2017. Aos 9 anos, foi difícil entender como um mundo como esse poderia existir no futuro. Depois das mulheres lutarem tanto por avanços, como poderíamos retroceder de tal maneira? Aos 17, lendo o livro e com uma base histórica maior, consegui entender como isso poderia vir a ocorrer. Mas foi só nos últimos anos que eu comecei a me preocupar com o fato de que isso realmente venha a acontecer. E não tão longe ou tão no futuro quanto antes parecia.
Vivemos um cenário político contemporâneo no Brasil no qual ver homens e mulheres questionando direitos femininos já assegurados se tornou algo normal. Muitas vezes parece que a nossa luta andou para trás. Homens como o Café com Deus Pai produzem vídeos para as redes sociais instruindo mulheres a agir de forma submissa, a não falar alto demais ou não vestirem roupas muito curtas ou decotadas. Esse tipo de fala alguns anos atrás seria devidamente problematizada. Hoje, ela é aplaudida.
Voltar o olhar para as últimas eleições é ainda mais desanimador. A mulher mais votada para a Assembleia Legislativa de São Paulo, a Alesp, foi Eduarda Campopiano, uma candidata do PL que aos 23 anos tem como principal lema ser antifeminista e a favor do cumprimento do papel tradicional da mulher. Entre tantas falas incrivelmente problemáticas da agora deputada, ela defende que o feminicídio não deveria existir enquanto conceito, visto que se trata de um crime de assassinato como qualquer outro e acrescenta que nenhuma mulher morre por ser mulher. A título de lembrança, vale destacar que em 2025, 1.470 casos de feminicídio foram registrados no Brasil. 1.470 mulheres perderam a vida em situação exclusiva de violência doméstica ou familar ou por consequência de menosperezo ou discriminação de gênero.
Talvez mais assustador do que ver esse discurso crescer mundo afora e no nosso país não seja o fato de ter quem o compartilha, mas sim perceber a quantidade de pessoas e, entre elas, muitas mulheres, que apoiam isso. Por isso digo que nunca estivemos tão perto de O conto da Aia, afinal o regime de Gilead só pode existir por contas de mulheres como a Serena Joy, que antes do golpe era uma escritora e palestrante pública renomada que usava essa liberdade para falar abertamente a favor de existência do regime e contra os direitos femininos. Mas eu gostaria de lembrar o fim que Serena tomou: silenciada igual a todas as outras mulheres (afinal ela era uma delas), acabou frustrada e amargurada com o regime que ajudou a instaurar.
Reprodução: Internet

Serena Joy (Yvonne Strahovski), à direita e a sua aia Offred (Elisabeth Moss), à esquerda.
Para quem acredita que falar que esse cenário não tem nada a ver com o que vivemos nos dias de hoje e que esta colunista está exagerando ou sendo desnecessariamente pessimista, lembro que o regime de Gilead não nasceu de um dia para o outro. Ninguém acordou um dia e estava tudo lá. Foi um processo gradual, onde direitos foram sendo tomados aos poucos, alguns sem que a população sequer percebesse. Em um passagem, a narradora da obra, que é também uma aia, lembra-se de quando seu dinheiro passou a existir apenas em máquinas. Depois fala sobre o dia em que perdeu seu emprego, assim como todas as outras mulheres, e como nenhuma delas conseguiu fugir porque as contas haviam sido congeladas. Quando todos perceberam e tentaram escapar, já era tarde demais. Porque assim como a maioria dos regimes extremistas da nossa história, como o próprio nazismo, nada começa do nada. Sempre há sinais.
Mas honestamente eu espero estar errada. Espero estar maluca escrevendo esse texto. Não é esse o futuro que eu quero nem de perto, então, sim, tomara que seja só exagero. Afinal, como pontuei na chamada da matéria, essa coluna é, além de crítica, um desabafo. Porque quero estar errada, e me preocupo que não estou. De qualquer forma, deixo aqui dois apelos finais. Em primeiro lugar para que todos, homens e mulheres, jovens e idoso, sem exceção, abram seus olhos. Não é porque você não quer ver que vai deixar de ser uma questão. Portanto estejam atentos e alertas aos sinais. Se não é o seu direito em jogo, pode ser o da sua amiga, mãe, irmã ou filha. Pode ser o daquela mulher que foi tão gentil com você. E são direitos humanos, acima de tudo.
O segundo apelo tem a ver com a própria natureza dessa coluna. Se há uma coisa que sobrevive a qualquer regime e qualquer ditadura, é a cultura. A cultura é um dos meios mais eficazes de expressão, de luta e de rebeldia. Então ouçam, assistam, leiam e produzam obras críticas. Consumam no máximo de cultura que puderem, porque ela liberta. A cultura é resistência.
E com essa anedota, encerro minha reflexão do dia e também a saga de colunas do período de jornalismo 25.1. Mas não se preocupe que em breve o Comunica volta sob uma nova gestão e tenho certeza que a coluna de cultura permanecerá em muito boas mãos. Aos colunistas e colunistas que vêm aí, meu mais sincero desejo de sorte e força. Estamos vivendo tempos onde valorizar a cultura nunca foi tão importante. E aos nossos queridos leitores, obrigada por estar conosco, esperamos que vocês tenham curtido nossas matérias. Assinado, as suas colunistas de cultura, Arlette Maria, Maria Eduarda do Valle, Kawani Vitória e Luana Maciel.








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