O desafio do último horário: a rotina de quem enfrenta a noite e a insegurança para sair da Uerj
- Comunica Uerj

- 10 de ago.
- 3 min de leitura
Entre ônibus lotados, longas esperas e medo de assaltos no Maracanã, estudantes contornam obstáculos diários para assistir às aulasno turno da noite
Por: Luiza da Costa
Foto: Luiza da Costa

Vista do prédio da Uerj iluminado durante a noite, no campus Maracanã
O relógio marca quase 21h30min. Enquanto os corredores vão se esvaziando, uma parte dos estudantes da Uerj inicia uma segunda jornada — a da volta para casa. Para quem cursa as disciplinas do último horário, o encerramento das aulas não significa o fim das preocupações, mas sim o começo de uma maratona de logística e atenção redobrada frente à vulnerabilidade urbana no entorno da universidade.
Após cumprir uma rotina que costuma se estender do período da manhã até a noite, o desgaste físico e mental torna-se inevitável. “Tenho aula o dia todo, desde manhã, então à noite meu rendimento cai. Mas também sei a importância de ter aula à noite. Essas aulas noturnas ajudam quando precisamos conciliar a faculdade com algo a mais na nossa rotina”, relata uma estudante de Relações Públicas que vivencia esse cotidiano.
As turmas de fim de noite mantêm uma média constante de alunos, sustentadas pela necessidade de cumprir a grade obrigatória. O grande obstáculo, contudo, aguarda do lado de fora dos portões. Para os alunos, ir embora significa transitar por uma região em constante alerta.
Se o percurso de volta exige cuidado de todos, para os universitários que moram fora do município do Rio a situação ganha contornos ainda mais complexos. A dependência de poucas opções de transporte intermunicipal transforma a saída do campus em um teste de paciência e resistência física.
“Vou de ônibus e resido em São Gonçalo. Por residir lá, acabo dependendo somente de uma linha de ônibus e percebo que muita gente compartilha dessa mesma questão”, expõe a aluna entrevistada. Ela aponta que o problema ultrapassa a mera frequência dos veículos: “Meu ponto atualmente está cada vez mais cheio, acredito que as frotas não estão dando conta. Vejo muitas pessoas reclamando do tempo de espera; às vezes fico 50 minutos aguardando. Ainda mais devido ao horário, torna-se mais perigoso.”
A longa permanência nos pontos de ônibus expõe os estudantes de forma prolongada à criminalidade local. Sem redes formais de apoio, estratégias informais surgem espontaneamente para amenizar a situação. Na Uerj, existe um número crescente de grupos de WhatsApp voltados para caminhadas até o ponto de ônibus, estação de metrô e também para combinar caronas, devido ao perigo das ruas ao redor do campus. “Não participo de grupo de caronas, mas tenho companhia até o ponto”, acrescenta a graduanda.
A sensação de medo relatada nas paradas de ônibus e passarelas reflete-se em indicadores concretos. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) revelam a dimensão do problema na região da Grande Tijuca e do Maracanã: o primeiro bimestre de 2025 registrou 320 ocorrências de roubos a pedestres na região, número que superou os 208 casos contabilizados em todo o ano de 2024. Pontos como a rampa de acesso às estações de trem e metrô e os acessos da Radial Oeste são frequentemente indicados pelos próprios alunos como áreas críticas.
A dinâmica do bairro também é influenciada pela agenda de eventos do Estádio Maracanã. Em noites de jogos de futebol, o fluxo atípico de pessoas, somado a bloqueios no trânsito e aglomerações, altera as rotas convencionais de fuga e transporte, dificultando a mobilidade dos estudantes e intensificando os relatos de assaltos na região.
Mesmo diante do quadro de insegurança e das limitações na infraestrutura de mobilidade urbana, a existência das disciplinas noturnas permanece fundamental para o acesso e a permanência no ensino superior público. “Tenho um dilema sobre os horários das aulas. Escolhi vespertino e noturno, mesmo assim tenho aulas às 12h que são obrigatórias. Tenho disponibilidade, mas muitas pessoas que fazem o curso comigo não têm. Então, mesmo com o perigo das aulas noturnas, elas de certa forma ajudam”, reflete a estudante.
A busca pelo diploma na Uerj requer mais do que dedicação acadêmica; demanda uma capacidade diária de transpor gargalos de transporte e estratégias de autoproteção. “Realmente essa questão de segurança, mais ônibus circulando, com variedade de horários, seria uma forma da graduação ser mais leve e segura”, conclui a estudante.








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