top of page

Estudantes do horário noturno da Uerj vivem diariamente o risco de dormir na rua

  • Foto do escritor: Comunica Uerj
    Comunica Uerj
  • 29 de jul.
  • 5 min de leitura

Por: Diego Oliveira


Todos os dias, milhares de estudantes dos mais variados cursos seguem rumo à Uerj para perseguir seus sonhos, concluir uma graduação e buscar uma melhor qualidade de vida para si e suas famílias. O grande problema, porém, é que, além das preocupações com os estudos e dos desafios inerentes à formação em uma universidade pública, esses discentes convivem diariamente com o risco de dormir literalmente nas ruas devido às dificuldades para retornar às regiões mais remotas dos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro, da Região Metropolitana e da Baixada Fluminense.


Ao deixarem a Uerj todas as noites, milhares de estudantes convivem com a incerteza de conseguir chegar em casa para descansar. Esse problema decorre, principalmente, de dois fatores que, somados, fazem com que os alunos precisem buscar alternativas viáveis para reduzir ou minimizar as dificuldades do deslocamento de volta às suas residências durante o período noturno.


Além do horário de término da última aula, às 22h, a frota reduzida de ônibus e trens faz com que estudantes da Região Metropolitana, da Baixada Fluminense e dos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro precisem recorrer a soluções criativas para cumprir integralmente a grade de disciplinas proposta pela universidade a cada período letivo. Quando essas alternativas não são possíveis, muitos estudantes enfrentam atrasos significativos em sua formação e, em alguns casos, acabam abandonando a graduação.


Em 2018, a Uerj tentou minimizar os impactos da falta de transporte no período noturno em relação ao horário de saída dos estudantes, antecipando o encerramento das aulas do antio 22h40m para o atual 22h. Entretanto, como nem tudo depende apenas da universidade, essa mudança não foi suficiente para reduzir as dificuldades enfrentadas diariamente pelos alunos no retorno para casa. Em razão dos problemas de segurança pública, muitas empresas de ônibus deixam de operar em determinados locais durante a noite. Além disso, os trens começam a reduzir sua circulação a partir das 21h, quando o ramal Belford Roxo encerra suas operações, enquanto os ramais Saracuruna, Japeri e Santa Cruz encerram suas atividades oficialmente entre 22h40m e 23h.


Estudantes da Uerj que moram nas localidades mais afetadas relataram a luta diária para conseguir voltar para casa. Muitos afirmam que, para não ficarem expostos aos riscos da violência nas ruas, acabam tirando dinheiro do próprio bolso para utilizar táxis ou transportes por aplicativo.


Para o estudante João Pedro Marins, de 19 anos, morador do bairro Mutuá, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro, a maior dificuldade está na ausência de um transporte direto para o seu bairro.


"A minha maior dificuldade não é nem para sair da Uerj. Mesmo quando consigo pegar o último ônibus para São Gonçalo, o 428, que faz o trajeto Vila Isabel até o bairro Trindade, por volta das 21h45m ou 22h, o grande problema é que, no Centro de São Gonçalo, preciso pegar outro ônibus até o Mutuá. Como já não há mais ônibus por causa do horário, fico parado na rua com o telefone na mão esperando um transporte por aplicativo ou um táxi. Isso acaba me tornando uma possível vítima de assalto."


Já para a estudante do curso de Relações Públicas da Uerj Ana Beatriz Contarato, de 18 anos, os desafios para chegar à sua casa, no bairro de Campo Grande, na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, são ainda maiores.


"Eu moro em Campo Grande, o que a gente já considera a extrema Zona Oeste, e a minha experiência com transportes e horários é um pouco delicada. Escolhi o período noturno porque ele se encaixava melhor na minha rotina e me permitia dedicar as manhãs e as tardes a possíveis estágios. Porém, a volta acaba sendo um pouco insegura, principalmente por eu ser uma garota. Na maioria das vezes, pego o trem expresso para chegar à Uerj, que geralmente faz o percurso em cerca de uma hora. Na volta, utilizo o trem parador, que demora aproximadamente uma hora e cinquenta minutos. Também tenho como alternativa a integração entre metrô e ônibus, que costumo utilizar quando saio muito tarde da faculdade por questões de segurança, já que o ônibus 756, da Viação Sol Rio de Janeiro, que faz o trajeto Coelho Neto até Santa Cruz, me deixa mais perto de casa do que o trem. Esse trajeto costuma levar, em média, duas horas."


Além da demora e da falta de opções de transporte, Ana Beatriz destaca outra preocupação importante: "Vale ressaltar a falta de estudantes da extrema Zona Oeste nos cursos de Comunicação, especialmente Relações Públicas e Jornalismo. Eu costumo fazer todo o trajeto sozinha, o que torna tudo mais perigoso. Sinto muita falta de companhia nesses caminhos."


Diferentemente dos casos anteriores, o estudante de Jornalismo Pablo Silva, de 20 anos, morador do bairro Wona, no município de Belford Roxo, afirma não enfrentar dificuldades para chegar em casa.


"Quando preciso sair da Uerj às 22h, não tenho dificuldades para retornar para casa. Posso fazer dois caminhos: pegar o metrô até a Pavuna e, de lá, o ônibus Vale do Ipê x Pavuna, linha 724I, da Transportes Flores; ou seguir de trem pelo ramal Saracuruna até a estação de Duque de Caxias e, depois, pegar o ônibus 500L, da Transportes Santo Antônio, que faz o trajeto Duque de Caxias até o bairro Wona. Mesmo sem enfrentar dificuldades, sei que não represento a maioria. Vejo diariamente muitos amigos e colegas sofrendo para conseguir voltar para casa, e acredito que essa situação precisa melhorar."


Em meio a esse cenário, a Uerj busca alternativas para que os estudantes do período noturno não sejam ainda mais prejudicados em relação aos alunos dos turnos matutino e vespertino. No entanto, uma nova antecipação do horário de saída das aulas é inviável, uma vez que os estudantes precisam cumprir a carga horária mínima e os conteúdos previstos nos cursos.


A solução para esse problema depende, sobretudo, da atuação do governo do Estado do Rio de Janeiro, garantindo um sistema de transporte público eficiente e compatível com a realidade dos estudantes. Afinal, o direito de ir e vir, assegurado pela Constituição Federal, deve ser respeitado para que todos possam estudar com dignidade, cumprir a mesma carga horária, independentemente do turno em que estudam, e disputar, em igualdade de condições, as oportunidades oferecidas pelo mercado de trabalho após a graduação.


É necessário investir em um sistema de transporte público mais eficiente, ampliar a oferta de horários no período noturno e fortalecer as ações de segurança pública, garantindo que estudantes possam exercer seu direito de ir e vir com tranquilidade.


Os jovens que frequentam a Uerj não reivindicam privilégios. Eles desejam apenas estudar, trabalhar e retornar para casa em segurança ao final de cada dia. O direito constitucional de ir e vir não pode permanecer apenas como uma garantia prevista no papel, mas deve ser assegurado de forma concreta para todos os cidadãos.


Comentários


bottom of page