Nostalgia: o passado é a nova tendência

Como calças de cintura baixa, mom jeans e outras peças do passado voltaram a dominar o guarda-roupa da Gen Z
Por: Vitória Perez
Não é de hoje que vemos notícias sobre continuações e remakes no cinema. Obras que considerávamos encerradas ganham sequências ou são repaginadas. Essa fixação com o que já conhecemos tem nome: nostalgia.
A indústria cinematográfica tem apostado cada vez mais nesse sentimento para dialogar com duas das gerações mais rentáveis: a Gen Z e os millennials, de acordo com a Deloitte (Digital Media Trends). A sequência do filme Como Perder um Homem em 10 Dias, ainda sem data para ser produzida, o retorno da série Friends durante a pandemia, que ganhou até um documentário quase 20 anos depois de seu término, e, na música, bandas como RBD e Sandy & Junior voltando aos palcos são alguns exemplos desse movimento.
Mas, afinal, o que faz a nostalgia ser tão atrativa?
No dicionário, a palavra nostalgia significa a “saudade de algo ou circunstância que deixou de possuir”. Porém, nem sempre ela foi vista dessa maneira. De acordo com a BBC, a nostalgia já foi considerada uma doença. O termo foi criado pelo médico suíço Johannes Hofer em 1688, para descrever uma espécie de enfermidade causada pela saudade de casa. Hoje, sabemos que ela é uma emoção e pode estar relacionada a diferentes benefícios psicológicos.
Esse sentimento ganhou ainda mais espaço depois da pandemia do coronavírus, em 2020. Durante o isolamento, quando o mundo precisou se afastar para conter a disseminação do vírus, a nostalgia passou a ocupar um lugar de conforto para muitas pessoas. Segundo Krystine Batcho, professora de psicologia do Le Moyne College, em Syracuse, Nova York, em entrevista à National Geographic, “a nostalgia pessoal tende a ser associada a benefícios psicológicos, pois ajuda a amenizar a solidão, promove sentimentos de pertencimento e estratégias de enfrentamento saudáveis”.
Dito isso, é inegável que a nossa geração tem buscado referências conhecidas para construir seu estilo de vida e até se aproximar de épocas que não viveu. A colunista que vos fala, por exemplo, é uma nostálgica incurável. Sou fascinada pela cultura pop dos anos 70 e 80, principalmente por músicas, filmes e novelas. E, quando o assunto é moda, não há época que me fascine mais do que os anos 90.
Foto: Pinterest/Jon Naso

Da esquerda para direita, Carolyn Bessette Kennedy e John F. Kennedy caminhando na rua
E é justamente aí que a nostalgia encontra a moda.
Por se tratar de uma indústria, as marcas estão atentas aos interesses do público. Ao longo da última década, enquanto o cinema recuperava obras conhecidas, redes sociais como Instagram e TikTok ajudaram a espalhar tendências que fizeram sucesso nos anos 1990 e 2000.
A estética Y2K, termo usado para denominar o estilo urbano dos anos 2000, é uma das maiores evidências desse interesse. Calças de cintura baixa, bandanas, tiaras, minissaias e muito gloss voltaram a aparecer entre as referências de moda. Já os anos 1990 ressurgem em peças como mom jeans, calças baggy, jaquetas oversized, slip dresses e os famosos bucket hats.
Mas as marcas também perceberam que essa referência não precisava ser uma reprodução exata. De acordo com a Vogue Brasil, o estilista Alessandro Michele, em 2015, fugiu do óbvio ao assumir a direção criativa da Gucci ao misturar referências das décadas de 1970 e 1980 e remodelá-las para os dias atuais, criando o estilo que ficou conhecido como nerd vintage. O exemplo mostra uma das características mais fundamentais da moda: ela é cíclica, não repete o que já foi feito, mas reinterpreta.
O retorno de tendências passadas é um mecanismo comum no mundo fashion. O mercado recupera uma estética conhecida, faz ajustes nos tecidos, no caimento e na modelagem e transforma aquilo em algo novo, ainda que familiar. Essa dinâmica também está relacionada aos ciclos sazonais que, segundo a revista Cláudia, surgiram no início da chamada moda moderna, quando as coleções passaram a ser organizadas de acordo com temporadas.
Vemos tudo isso também na efervescência dos brechós e bazares. Cada vez mais, buscamos roupas e acessórios retrô em lugares que antes poderiam parecer distantes ou antiquados. Queremos garimpar peças únicas, por preços mais acessíveis, e fugir da obviedade e liquidez das fast fashions e das lojas de departamento. Quem se considera um garimpeiro profissional e não conhece a Feira da Praça XV, no Centro do Rio?
Nesse mundo hiperconectado, em que o futuro parece incerto, a nostalgia oferece uma sensação de familiaridade, conforto e segurança. Talvez por isso ela tenha encontrado um espaço tão grande na cultura e, principalmente, na moda. Cabe a nós decidir se estamos recuperando referências porque elas fazem sentido para quem somos hoje ou apenas porque o mercado descobriu uma maneira eficiente de vendê-las novamente.








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