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Histórias que relação entre pais e filhos trazem para universidade revelam afeto, inspiração e luta

  • Foto do escritor: Comunica Uerj
    Comunica Uerj
  • 21 de out.
  • 5 min de leitura

Como a presença e a proximidade das crianças nos transportam às nossas próprias crianças


Por: Carlos Roberto


Subindo o último lance de escadas rumo ao décimo andar, sempre costumo olhar para o lado direito antes de me dirigir à sala, porque sei que posso encontrar meu grande amigo skatista sentado em um daqueles bancos amarelos do hall. Ele não está no mesmo curso que eu, na verdade nem estuda na universidade, mas eventualmente está presente lá. Estou falando de um menino muito carismático com uma energia que beira o infinito. A primeira coisa que faço é dar um leve toque no skate, deixando chegar até ele, e a diversão pelo corredor, ou devo dizer, pelo parque olímpico, se inicia com um sorriso no rosto e um pacote de amendoim na mão. E só acaba ao chamado dos pais, no término da aula deles, com um cumprimento de mão e a boa e velha expressão “tamo junto, moleque!”


Por onde você estiver passando, certamente vai encontrar alguma criança. Sim, a Mãe Uerj tem mais filhos do que você pensa, além de nós mesmos. São estudantes do Colégio de Aplicação (CAP/Uerj), alunos de creches e de outras escolas, que acompanham seus pais nesta jornada junto à formação profissional. Mas existem histórias nas quais essa relação transcende os muros da São Francisco Xavier. Juliana Nascimento, estudante de jornalismo, conta que ao ingressar na Uerj, em 2019, sua filha foi aprovada no 6⁰ ano do Colégio de Aplicação. Foi uma dupla felicidade, uma conquista vivenciada de forma muito intensa. Julah, como também é conhecida, deu uma nova chance para realizar seu sonho de cursar jornalismo, e a realização conjunta tem sido um grande marco em sua vida. Destacando que a filha foi a grande apoiadora, e aliando o incentivo dela ao pré-vestibular social - do qual ela, ainda pré-adolescente, também estava participando para poder ingressar no CAP - Julah viu-se em um espelho no qual sua filha refletia a imagem. Isso me lembrou o clipe da música Greatest Love of All, da ilustre Whitney Houston, ao mostrar que a carreira de sucesso passou pelo sonho de criança através da metáfora do espelho, representando sua versão infantil na escola de canto, e na fase adulta, brilhando nos palcos. “Eu acredito que as crianças são o futuro. Deixe que o sorriso das crianças nos lembre de como costumávamos ser.” Os versos desta canção são um convite à reflexão: olhar para o passado é conhecer um futuro melhor. Acredito que esse olhar sensível nos transporta para nossa criança interior. É o que a psicóloga Luciana Machado define em seu podcast Maternidade Real. Ela, mãe do Ben, viu-se diante de um mundo lúdico a partir do momento que seu filho despertou o interesse pelo desenho, e seguiu a inspiração do pequeno. Julah, por sua vez, está diante de um universo de conhecimento em nível superior ao mesmo tempo que resgata as bases onde estivera e que a fizeram chegar a esse estágio, através do vínculo com sua filha. Enxerga-se uma certa poesia escrita com os versos mais bem elaborados nessa história escrita a duas canetas.



Reprodução: arquivo/ Carlos Roberto

Julah , estudante e mãe
Julah , estudante e mãe


Na psicanálise afirma-se que “todo filho é adotivo, não porque lhe falte vínculo biológico, mas porque nenhuma criança nasce pronta para os pais, nem os pais nascem prontos para a criança”. A partir dos ensinamentos que a filha passa, Julah afirma que seu processo de desenvolvimento é forjado para além de si, e a oportunidade de ser uma mãe amiga é um privilégio. Poder vê-la crescer, acrescenta, a faz sentir adotada. A jornalista em formação se surpreende ao relembrar de uma de suas conversas com a jovem estudante, quando ela diz que só o amor não é o suficiente, já que a maternidade é um processo de grande responsabilidade, e é preciso ter muitas compatibilidades às quais não se consegue ter certeza até a criança nascer. Maternar, estudar e tocar a vida, tudo ao mesmo tempo, deve nos fazer pensar o quão importante é o apego a essas responsabilidades. Mas isso não se constrói apenas com os pais.


O que mais me marcou nesta entrevista foi a definição da universidade como um organismo vivo, que passa por constantes mudanças em função das necessidades de quem vive nela. Portanto, torna-se necessária a construção de infraestrutura para acolher os filhos dos estudantes, garantindo a permanência, a segurança e o convívio, porque “filho não é obstáculo, o que é obstáculo é a falta de suporte e de apoio para continuar a realizar o sonho, que é se graduar.” A partir do relato de uma mãe e estudante de pedagogia, em um vídeo criado pelo antigo reitor da universidade Ricardo Lodi o impacto dessas políticas de acolhimento é significativo para o pleno processo de cuidado com o filho e a manutenção do sonho da graduação. Juliana reitera que muitos direitos foram conquistados na marra, pelo simples fato de trazer a criança para a sala de aula. No duro cenário violento das cidades, que por vezes impede a decisão de fazer a matrícula na creche, ou de não poder deixar a criança sob tutela de algum parente ou babá, ficar com ela na universidade é uma realidade. E deve ser assegurada. Não se pode mais fazer gambiarras, é preciso ter a estrutura correta e o apoio em todas as esferas, quer seja física, com os transportes específicos, o auxílio-creche, os fraldários em todos os banheiros, espaços infantis, bem como cadeiras e mesas para essa faixa etária. O apoio psicológico também é importante, no sentido de ter um espaço para ouvir os anseios dos pais e entender seus desafios nesta dupla jornada. É “a partir do desconforto que esse organismo vivo se transforma, colocando esses incômodos pra jogo.” Muita coisa tem que mudar ainda, mas a união e a força coletiva são os impulsos para propor essa solução de demandas. O Coletivo Mães e Pais Uerj, referência nessa luta, é um lugar de escuta com muita fraternidade e acolhimento, e corrobora tudo o que Julah destaca em seu potente discurso, atribuindo a equidade a consideração das especificidades de cada indivíduo, para que todos consigam alcançar seus objetivos.

Permitir-se sonhar é uma dádiva. Prestes a se formar, ela vê a filha trilhando o caminho que fizera há bastante tempo, mas ainda percorre com o mesmo senso crítico e coletivo. Ela pode não optar pela carreira acadêmica, como aponta, mas só o fato de ver a mãe concluir a graduação, a faz sonhar e enxergar possibilidades além de si. Se hoje estamos nas cadeiras de uma das maiores universidades do país, é porque uma criança ousou pensar e trabalhar nesse sonho. E enquanto estudantes, podemos ver isso no reflexo das novas gerações que, de certa forma, são crianças como nós. Como escreve Renato Russo em Pais e Filhos: “o que você vai ser quando você crescer?”




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