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Da escuta sensível da natureza à produção musical, Biosample faz do ‘som da vida’ um caminho de conexão e respeito

  • Foto do escritor: Comunica Uerj
    Comunica Uerj
  • 4 de nov.
  • 3 min de leitura

Laboratório cruza arte, ecologia e tecnologia para espalhar a identidade sonora de forma crítica e criativa


Por: Carlos Roberto



Você já parou para pensar em como são criadas as bases rítmicas das músicas as quais te acompanham na ida para a universidade, no trabalho, em casa ou nas festinhas? Experimente ouvir uma faixa focando na parte instrumental, principalmente as que têm os graves bem definidos. Um exercício difícil de executar em tempos de correria, mas que nos ajuda a compreender as vibrações que constroem nossa energia e estado de espírito. Um bom exemplo disso é o famoso beat do saudoso Mr. Catra, o homem que revolucionou a cena do funk carioca.


Em uma de suas apresentações promovidas pelo MC Créu, os equipamentos de som desligaram devido às “gambiarras” que não suportaram a energia, conforme aponta o próprio produtor. Improvisa! Ao grito do MC, Catra lança o tum-cha-cha-tumtum-cha-cha e não apenas manteve aquele show vivo, como consagrou o beatbox, que é replicado nas músicas e samples até hoje. A criatividade aliou-se ao padrão vibratório daquele momento. E por falar em sample, é possível estender esses padrões com a interação da natureza e dos seres vivos. É o que faz o Biosample, o Laboratório de pesquisa e composição musical sobre estudos de bioacústica. Desenvolvido em São Paulo (por que não Biosampa?) pelo Museu Imaginário de História Natural (MIHN) e coordenado por Rico Manzani (fundador), Bruno Gari (diretor) e Simone Tenório (coordenadora científica), o projeto agrega ciência, música e tecnologia.


Sabemos que a bioacústica é o som da vida e também o instrumento para compreendermos a comunicação entre animais e plantas. O laboratório explora a produção, a dispersão e a recepção de sons. Unindo técnica, pesquisa, apuração e altas doses de invenção para criar amostras sonoras dos biomas brasileiros - um dos mais ricos do mundo - a ideia é deslocar nossas atenções para as paisagens e composições musicais. Imagine que a música é como um vento que sopra antes de entrar uma frente fria, aquele assobio que, às vezes, é assustador. O ritmo enlouquecedor das bicadas do pica-pau-chorão, espécie muito comum nas cidades. O vai e vem das ondas no mar acompanhados de pequenos estalos na areia, por conta do fluxo de água que corre pelos túneis causados pelos tatuís ou outros insetos de vida marinha.


Tudo isso gera uma experiência imersiva e de contemplação da identidade sonora e sensorial que o Biosample pretende transmitir. Uma escuta sensível e criativa é essencial para incentivar a admiração e o respeito pela vida, e assim, reconectar as pessoas com os espaços que entendemos por natureza. Um lema de muito valor, sobretudo quando nos deparamos em um cenário ruidoso e estressante. Se para nós é extremamente ruim acordar com o som de martelete, retroescavadeira, serra-mármore entre outras ferramentas que formam a pior banda instrumental de todas, imagine para os animais que têm a audição mais sensível, e dependem da dispersão de um som limpo para se comunicar. Respeitar a natureza resulta na melhoria da qualidade de vida e na sinergia com o meio ambiente, o que pode nos transportar, inclusive, até nossa ancestralidade.



Reprodução: arquivo/Instagram Biosamplemusica

Captação sonora feita próximo às margens do Rio Cuieras, no Amazonas. Projeto é feito em parceria com centros de pesquisa científica
Captação sonora feita próximo às margens do Rio Cuieras, no Amazonas. Projeto é feito em parceria com centros de pesquisa científica

E o trabalho do Biosample segue com passaporte internacional. Espalhando o poder da bioacústica pelo mundo, o projeto desembarcou em Portugal, na cidade de Coimbra, em sua primeira turnê, no Festival Mate. Simone Tenório destaca a inovação do projeto em ampliar a causa da conservação em um evento que visa a integração entre educação, tecnologia e ciência. Os sons das onças, dos uirapurus e até das baleias foram sampleados para criar uma intervenção artística diferenciada. O projeto foi muito bem aclamado e o desejo é muito mais que o retorno ao Mate, e sim, viajar por todos os cantos.


Reprodução: arquivo/Instagram Biosamplemúsica

Rico e Bruno em apresentação no Festival Mate, em Coimbra.
Rico e Bruno em apresentação no Festival Mate, em Coimbra.


A tecnologia, quando bem utilizada, pode ser inspiradora e construtiva e funcionar como mecanismo de educação, cultura e transformação. Deve ser sensacional adentrar nas matas para captar os esturros de uma onça-pintada ou o bramido de um jacaré-açu, mesmo sabendo dos perigos. Mas a beleza reside e está guardada junto a estas expedições. Há sempre um universo sonoro a ser explorado, e a bioacústica é um excelente convite. Você pode acompanhá-los através do Instagram e vivenciar este ilustre projeto.


 
 
 

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