Andarilhos da bola: quando o sonho vira pesadelo
- Comunica Uerj
- 27 de mar.
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Má gestão de carreira é um dos principais fatores que explicam a queda de jovens promessas
Por: João Pedro Serafim Alves
Reprodução: Getty Images

Na era da globalização, a internet facilita a busca de clubes europeus por jovens talentos brasileiros ainda nas categorias de base, numa espécie de colonialismo moderno. O objetivo é claro: “desenvolvê-los” seguindo as percepções europeias de futebol. Entretanto, muitas vezes, esses clubes não oferecem um plano de gestão de carreira estruturado, fazendo com que o jogador vivencie um legítimo “Carrossel Europeu”, indo para diferentes times do velho continente até voltar ao futebol brasileiro.
Recentemente tivemos o caso do Vitor Roque que exemplifica essa situação. O jogador surgiu de forma meteórica no Athletico Paranaense, colecionando boas atuações, sendo considerado um “novo Ronaldo” por sua velocidade, físico e força. Alçado como umas das principais promessas do Brasil, atraiu atenção de gigantes europeus, sendo negociado com o Barcelona. Porém, no clube blaugrana, o seu sonho de infância transformou-se em pesadelo. A jovem promessa teve poucas oportunidades, transferindo-se ao Bétis, no qual continuou com suas atuações inconsistentes. No final de 2024, ele voltou ao futebol brasileiro para atuar no Palmeiras após uma passagem frustrante pela Europa, no qual conviveu com baixas oportunidades devido a uma lesão sofrida no joelho quando ainda atuava no Athletico.
Essa é apenas uma das milhares histórias de talentos que saem do Brasil precocemente e não conseguem lidar com a pressão, a adaptação e os desafios do futebol europeu. Consequentemente entram num ciclo de decisões equivocadas que transformam a realização de um sonho de infância em uma série de desafios.
Muitos desses jogadores são contratados com expectativas irreais de se tornarem um novo “Messi” ou “Pelé”. Por isso a responsabilidade dos clubes e dos agentes é fundamental nesse processo. Muitos times europeus contratam jovens talentos por valores elevados, mas não oferecem a estrutura necessária para o seu desenvolvimento tático e psicológico. A paciência para formar um jogador, auxiliando-o na adaptação a uma nova cultura, é raro em gigantes europeus, que jogam o atleta num ambiente de pressão da torcida que quer ver resultados do alto investimento.
Somado a isso, agentes focados apenas no lucro escolhem destinos pouco atrativos ao estilo de seus atletas, afetando o seu desenvolvimento a longo prazo e prejudicando suas carreiras. Irlan Simões, colunista no GE.globo e integrante do Sportv, comenta um pouco sobre essa relação predatória entre empresários e atletas: “O empresário ganha dinheiro participando do salário do jogador ou comissão na hora da venda. Ele precisa dessa movimentação constante. Se o atleta mudar de clube cinco, seis vezes, o empresário ganhará mais cinco, seis comissões ao longo da carreira.” Simões acrescenta que "Por isso, esses agentes têm interesse muito imediatista, colocam jogadores que poderiam desenvolver relações de idolatria e pertencimento com clubes em rotas de colisão com eles, forçando muitas vezes a saída destes, deste modo queimando-os”.
Essa ida precoce para o exterior gera diversas expectativas. Entretanto, a adaptação precisa mais do que do talento natural, sendo fundamentais fatores como idioma, cultura, culinária e distância da família. A falta de acompanhamento e a ausência de uma estratégia de longo prazo acabam gerando um ambiente de instabilidade. O resultado é que, ao invés de se tornarem grandes jogadores, esses atletas ficam no limbo, sendo emprestados para outros clubes ou até mesmo esquecidos pelos times que investiram neles. E a frustração, no final das contas, acaba sendo de todos nós, fãs de futebol, que não chegamos a ver o desenvolvimento do talento que imaginávamos.
Portanto, a ida de jovens jogadores para a Europa deve ser encarada com mais responsabilidade. Não basta apenas abrir as portas para que eles joguem em grandes clubes. É necessário proporcionar a esses atletas as condições adequadas para que possam evoluir tanto dentro quanto fora de campo. Isso parte do clube formador que deve contribuir com a formação humana e atlética do atleta, bem como dos empresários do jogador que devem traçar um plano de carreira para que possa desenvolvê-lo da maneira mais saudável e responsável.
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