top of page

Ancestralidade como ponto de partida: EBA Sankofa representa educação comunitária na Expo Favela Rio

  • Foto do escritor: Comunica Uerj
    Comunica Uerj
  • 5 de nov.
  • 3 min de leitura

Metodologia bilíngue conecta cultura, território e desenvolvimento para crianças


Por Laiza Villaça


Foto: Laiza Villaça

Estande da EBA Sankofa na Expo Favela Rio
Estande da EBA Sankofa na Expo Favela Rio

A Expo Favela Rio 2025, realizada nos dias 25 e 26 de outubro na Cidade das Artes, Barra da Tijuca, reuniu empreendedores, artistas, startups e lideranças de favelas e periferias — somando cerca de 35 mil visitantes ao longo dos dois dias.


Promovida pela Favela Holding, em parceria com instituições públicas e privadas, a Expo Favela é considerada o maior evento de negócios e inovação protagonizado por empreendedores periféricos. A proposta é aproximar do mercado, de investidores e da sociedade em geral projetos e soluções que surgem nas favelas — reafirmando que a inovação não nasce apenas nos grandes centros, mas também na força criativa dos territórios populares.


Entre os destaques desta edição, esteve a participação da EBA Sankofa, uma iniciativa de educação bilíngue, com perspectiva afro-diaspórica voltada para crianças de territórios periféricos. Sediada no Estácio, a EBA Sankofa articula aprendizagem, ancestralidade e cultura como base para a construção de uma pedagogia que reconheça a identidade e pertencimento.


Educando com o que vem de trás para seguir adiante


O nome do projeto parte do conceito africano Sankofa, representado por um pássaro que olha para trás enquanto segue em frente. O princípio é claro: para avançar, é preciso recuperar o que nos formou.


Durante a feira, Débora Alves, formada em História e fundadora da iniciativa, explicou ao COMUNICA UERJ que o ponto de partida da Sankofa é reconhecer uma desigualdade evidente na educação brasileira: “A maioria das crianças negras, faveladas e periféricas ainda estão excluídas do acesso à educação formal de qualidade. E quando a gente observa o cenário da educação bilíngue, essa desigualdade se torna ainda mais gritante, porque o número de crianças negras que têm acesso a esse tipo de ensino é muito pequeno. Elas não se veem nos conteúdos, nas referências, nas histórias que são contadas. A Sankofa surge justamente para propor uma outra narrativa” — conta a idealizadora.

A panorama afrocentrado do projeto se concretiza em atividades como:


Teatro Bilíngue, que utiliza expressão corporal, sonoplastia e histórias da diáspora negra para desenvolver criatividade, confiança e fluência.



Clube de Leitura Bilíngue, que trabalha textos, músicas e narrativas afro-brasileiras e afro-diaspóricas em Português e Inglês.


Oficina de Inglês Lúdico, voltada para crianças em alfabetização, com músicas, jogos e contação de histórias.



Sankofair, feira cultural bilíngue itinerante que já passou por comunidades como a Penha, oferecendo vivências gratuitas para famílias e crianças.


“A gente entende que, se há escolas bilíngues indígenas que conseguem integrar língua e cultura de forma coerente, por que não poderíamos fazer o mesmo pensando a partir de uma perspectiva afro-brasileira e afro-diaspórica? Então, a Sankofa nasce desse entendimento histórico e social, olhando para as desigualdades, mas também como um movimento de construção”, completa Débora.


Educação como prática de autonomia e política cotidiana

Além da proposta pedagógica, a Sankofa reforça que educar é um ato político. Débora explica que recuperar referências da afrodiáspora no processo educativo é parte fundamental da formação das crianças — não como um adendo cultural, mas como eixo estruturante da aprendizagem.


“A dimensão de ancestralidade que a gente quer recuperar é justamente a histórica. A Sankofa busca reconectar as crianças com as histórias e as referências da afrodiáspora que foram negadas dentro da educação formal. Quando a gente fala de ancestralidade, não é algo abstrato, é algo concreto, que aparece no currículo, nas atividades, principalmente no nosso clube de leitura. A gente trabalha com histórias de pessoas como Maria Firmina dos Reis, Dona Ivone Lara, Nina Simone, Nelson Mandela, Rosa Parks — nomes que fazem parte da nossa herança cultural, mas que raramente aparecem nas escolas tradicionais” , destaca.


Essa abordagem também orienta a forma como a Sankofa ocupa espaços de circulação pública. Para Débora, a presença na Expo Favela tem uma importância enorme: não apenas apresentar um projeto, mas reafirmar que a produção de conhecimento também nasce e se fortalece na periferia.


“Estar em um evento como esse é uma oportunidade de visibilidade e de conexão com as famílias, as crianças e com possibilidades de construir parceiros que acreditam em uma educação revolucionária. Mas, principalmente, é mostrar que a tão falada inovação não está só nas grandes instituições privadas (se é que está lá); ela nasce, sobretudo, dentro das comunidades, a partir de pessoas que olham para os seus territórios e pensam soluções criativas e potentes”, conclui.


Um novo capítulo na educação bilíngue


Hoje, a EBA Sankofa funciona a partir de mensalidades sociais e do apoio direto da própria comunidade. O objetivo é ampliar o número de bolsas para crianças negras e de famílias periféricas.


Para quem deseja conhecer o projeto, participar das oficinas ou contribuir com as bolsas sociais, informações sobre próximas atividades, turmas e inscrições estão disponíveis no perfil oficial da EBA Sankofa no Instagram: @eba.sankofa.


Comentários


bottom of page