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Retrocesso disfarçado de ciência

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    Comunica Uerj
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

Decisão da CBV é um ataque a pessoas trans e representa um atraso no debate esportivo e social


Por: Matheus Espíndola


A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), aderiu à política do Comitê Olímpico Internacional (COI) que exclui mulheres trans da categoria feminina. A medida começa a valer nas competições organizadas pela CBV a partir da próxima temporada e alcança a Superliga A e B, a Supercopa, a Copa Brasil e torneios de vôlei de praia. A entidade brasileira apresenta a mudança como alinhamento técnico. Mas não há nada neutro em escolher quem pode competir, quem precisa provar seu corpo e quem será retirado de um espaço público.


A decisão mais recente da CBV foi anunciada na última sexta-feira, dia 14, mas a responsabilidade política é também do COI. Em março, o Comitê aprovou uma política para os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028, baseada na triagem do gene SRY. O argumento oficial fala em justiça, segurança e integridade do esporte feminino. São palavras importantes, mas não podem funcionar como senha para encerrar o debate. Uma política que exclui uma população inteira precisa provar muito mais do que sua intenção: precisa demonstrar que é cientificamente necessária, juridicamente proporcional e socialmente aceitável.


O SRY é um gene relevante no desenvolvimento sexual, mas não é um certificado universal de masculinidade nem um medidor de desempenho esportivo e a decisão de excluir pessoas unicamente pela presença ou não desse gene não leva em consideração outros fatores que podem indicar ganhos físicos para a atleta. Segundo especialistas, ele participa de uma cadeia biológica que envolve outros genes, gônadas, hormônios e receptores. Pessoas podem ter SRY e não responder à testosterona.


A falha central da política do COI é confundir um marcador genético com uma sentença esportiva. Pode-se detectar o gene com precisão e, ainda assim, não ter respondido à pergunta que realmente importa: essa atleta possui uma vantagem competitiva relevante? O teste não mede força, velocidade, potência, treinamento ou desempenho. Mede pertencimento presumido.


O discurso da proteção também esconde quem será colocado sob vigilância. A política não atinge apenas mulheres trans. Ela pode atingir atletas com variações do desenvolvimento sexual, inclusive mulheres que não são pessoas trans. Quando uma categoria passa a exigir uma prova genética de feminilidade, qualquer corpo considerado “masculino demais” pode se tornar suspeito.


O COI chama o novo exame de pouco invasivo porque a coleta pode ser feita por saliva, sangue ou swab (teste feito usando uma espécie de cotonete estéril para coletar uma amostra de secreção ou células de uma determinada região do corpo, como nariz, por exemplo). Mas o swab não é o problema inteiro. O que ocorre quando o resultado é inesperado? Quem será informado? Que investigação médica será exigida? Quem protegerá a atleta da exposição? Uma política pode começar com uma coleta simples e terminar com uma pessoa obrigada a explicar sua anatomia, sua genética e sua identidade diante de dirigentes, médicos, imprensa, família e público.


Para pessoas trans, o efeito é ainda mais profundo. A mensagem não é apenas “você não pode disputar esta prova”. É uma negação da sua identidade, de que ela não basta para que aquele espaço, de que seu corpo será submetido à fiscalização de uma instituição. Esse mecanismo transforma a existência em autorização provisória. A mulher trans pode trabalhar, treinar, representar um clube e construir uma carreira, mas a qualquer momento a autoridade esportiva pode declarar que ela não é mulher o suficiente para estar na quadra. Isso limita a existência social dessas pessoas, sua visibilidade e seu direito de participar da vida coletiva.


Aqui no Brasil, apenas uma atleta se enquadra nesta categoria definida pela CBV e estará impedida de participar da Superliga Feminina de Vôlei na próxima temporada. Estamos falando de Tiffany Abreu, jogadora do Osasco de 41 anos.  Em 2017, a atleta recebeu autorização da Federação Internacional de Voleibol (FIVB) para disputar competições femininas. Naquele ano, passou pelo Golem Palmi, da Itália, e pelo Vôlei Bauru, tornando-se a primeira mulher trans a disputar uma partida da Superliga Feminina.  Tiffany permaneceu no Bauru até 2021, quando se transferiu para o Osasco. Pelo clube paulista, consolidou-se como um dos principais nomes de sua posição e, na temporada 2024/25, conquistou a Superliga, a Copa Brasil e o Campeonato Paulista. Com o título nacional, tornou-se a primeira atleta trans a ser campeã da Superliga Feminina. 

Crédito: Carolina Oliveira/Osasco

Tiffany Abreu durante partida do Osasco
Tiffany Abreu durante partida do Osasco

Em entrevista depois de partida pelo Campeonato Paulista, a jogadora lamentou e definiu a situação como um “retrocesso”. Além disso, destacou que vai se manter na luta e procurar as medidas possíveis para evitar sua exclusão na próxima temporada do voleibol feminino. A Federação de Vôlei de São Paulo afirmou que a jogadora está liberada para jogar o Campeonato Paulista,  que foi definido com a regras até então, antes da diretriz da CBV que bane mulheres trans.


A Associação Nacional de Trans e Travestis, Antra, definiu a política do COI como parte de uma engrenagem mais ampla de exclusão e afirmou que argumentos biológicos estão sendo usados para reativar velhas estratégias de controle dos corpos.  A entidade tem razão ao apontar que o esporte feminino enfrenta problemas concretos como desigualdade de investimento, precarização, falta de proteção e ausência de garantias institucionais. Todos esses problemas deveriam ser de fato a preocupação real da CBV para aumentar a justiça e equidade no esporte feminino.


A CBV poderia ter escolhido discutir critérios proporcionais, ouvir atletas, publicar evidências independentes e proteger a privacidade sem transformar uma minoria em problema nacional mas preferiu importar a política do COI e apresentá-la como inevitável. Não é. É uma decisão institucional, com conteúdo político e efeitos humanos. O esporte deveria ensinar que ninguém precisa pedir licença para existir. Ao aderir ao COI, a CBV ensina o contrário: que algumas pessoas só podem entrar em quadra depois de provar que seus corpos merecem estar ali.


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