Resgate às referências pretas femininas na literatura
- Comunica Uerj
- há 1 dia
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Como 3 projetos de extensão apresentados na Uerj Sem Muros estão promovendo a evidência de mulheres negras no campo literário
Por: João Otávio Alves
Foto: João Otávio Alves

A 33ª edição da Uerj Sem Muros, ocorrida na última semana do dia 24 de março, tem como objetivo “disseminar o conhecimento da cultura através do ensino, pesquisa e extensão, dentro de referenciais de excelência em todos os campos do saber”. É irônico, no entanto, pensar que na estrutura social em que vivemos — e dentro da universidade — o conhecimento à cultura negra não é disseminado e nem sequer incentivado nas grades curriculares tradicionais.
As referências a pessoas pretas que produzem e difundem saberes por meio de uma literatura crítica e enegrecida parece ter sido escondida propositalmente ao passar dos anos, dando lugar a uma literatura totalmente embranquecida. Dessa forma, foi negado à própria população negra a possibilidade de produzir e difundir seus saberes, a partir de suas vivências e singularidades, pela falta de acesso a referenciais negros. Quero dizer, quantas das pessoas pretas dessa geração tiveram acesso a livros de escritores negros e negras na sua formação escolar? Se a resposta a essa pergunta já nos traria um quantitativo baixo, e se estreitarmos mais esse filtro, pensando em quantas mulheres pretas dessa geração tiveram a possibilidade de acessar livros de escritoras negras na sua formação? E quais plataformas hoje difundem esse conhecimento, que deveria ser assegurado institucionalmente? Pois é justamente nessa falha — ou estratégia — do sistema, que 3 projetos apresentados na Uerj Sem Muros estão trabalhando.
A 26ª Mostra de Extensão da Uerj contou com a presença de 3 mulheres pretas cujos projetos apresentados trabalham e ressaltam a importância da referência negra feminina intelectual. Ryone Fernanda da Silva Rosa, estudante de Letras/Francês pela Uerj e professora de francês, é bolsista externa do LetrasPretas, um projeto que visa a pesquisa e difusão da produção intelectual, cultural e literária de mulheres negras. Ele atua por meio de um blog, indicando periodicamente textos, resenhas e ensaios de escritoras negras, levando, inclusive, relatos pessoais das participantes do projeto. O LetrasPretas também atua por meio de um podcast homônimo no Spotify, além de promover diversos eventos, em que já receberam escritoras negras destacadas, como Lu-Ain Zaila e Cidinha da Silva. Ryone fala sobre como o LetrasPretas pôde apresentá-la a mulheres negras iguais a ela, no lugar de doutoras e escritoras, e a tamanha importância disso. Também ressalta o quanto o projeto nutriu sua visão crítica do racismo estrutural, e como ela o enxerga enquanto um meio de estremecer o sistema racista por meio do debate, difundindo essa visão crítica à população. “(O projeto) Impacta muito na minha profissão. Se não fosse o LetrasPretas, por exemplo, eu não teria o pensamento de que o francês não é só da França, mas também é africano, e levar essas questões críticas para a sala de aula, difundindo o debate.”
A potência dessa difusão por intermédio da literatura negra também foi apresentada por Ana Clara dos Santos Pereira. A professora e graduanda em Letras/Inglês na Uerj é bolsista do projeto de extensão (Trans)formando Leituras no Morro da Babilônia. Atuante na Biblioteca Hélio De La Peña, o projeto leva a leitura para o Morro da Babilônia e do Chapéu Mangueira, ambos no Leme, promovendo a democratização de assuntos educativos a fim de despertar um pensamento e olhar reflexivo dos frequentadores. Ana Clara fala sobre o compromisso da biblioteca com o impacto social em torno da literatura afro-diaspórica, que espelha as pessoas que estão majoritariamente naquelas comunidades. As atividades ali promovidas visam a geração de um impacto educacional, com eventos temáticos e clubes de leitura. Ana, que coordena um clube com foco em mulheres da terceira idade, conta como muitas daquelas mulheres negras levam seus pontos de vista potentes e enriquecedores em relação às leituras. Com textos como os de Conceição Evaristo, os livros abordados conseguem tocar em temáticas que impactam a realidade delas.
Embora, muitas das vezes, as pessoas que moram nas favelas possam não enxergar a literatura enquanto pertencente a elas, é importante conhecerem aquelas produções que não chegaram às suas casas, mas foram pensadas para abranger suas vivências e singularidades. É com esse objetivo que o (Trans)formando Leituras consegue trabalhar. Ele busca abraçar, por meio da literatura e oralidade, as pessoas negras que não tiveram a oportunidade de ter referências literárias em sua formação, que podem querer a oportunidade de expor um talento, mas não sabem por onde começar. Ana Clara relata como o projeto busca escritores locais ou leitores que tenham a vontade de escrever, para que também se sintam parte desse mundo. A moradora do Engenho da Rainha também fala da importância pessoal que o projeto tem em sua vida. “É importante na medida em que me deixa próxima dessas realidades, que são muito parecidas com a minha, porque eu também vim de favela. Quando eu pesquiso literaturas de mulheres negras, busco evidenciar o quanto elas criam seus textos pensando num coletivo, para que a voz delas seja potencializada. Então estar nesse projeto é importante para mim porque me vejo nesse lugar de me reinventar, para fazer com que aquilo fique acessível ao povo, porque literatura é para o povo.”
Nessa perspectiva, enxergamos a importância de o povo ter a oportunidade de produzir para ele próprio. Foi numa dessas oportunidades que Juliana Nascimento, ou Julah, como gosta de ser chamada, pôde escrever sobre e para outras mulheres negras como ela. Julah Nascimento é escritora, estudante de jornalismo da Uerj e estagiária do Lacon, laboratório que produz pesquisa sobre comunicação, cidade, consumo e diversidade no Rio de Janeiro. Numa de suas incumbências em março, Julah ficou responsável por escrever a edição número 58 do ImaginaRIO, boletim mensal que fala sobre acontecimentos da cidade do Rio que conversam com a temática do laboratório. Na curadoria, o Lacon deu liberdade para ela levar a sua vivência para a edição, falando sobre mulheres negras, samba e o resgate da ancestralidade.
Em cada coluna do boletim, ela levou algo especial que tivesse a ver com ela. Introduziu com a Pequena África, local da Zona Portuária do Rio, responsável por guardar a herança africana na cidade e também muitas memórias da escritora. Depois, levou Mart’nália como personagem, a partir de sua identificação com a artista e da importância dela para o samba. Apresentou, ainda, a roda de samba Mulheres da Pequena África, que já havia frequentado. Buscou uma entrevista extraordinária com Nathália Silva, do Observatório Y-guassú, e, por fim, levou a indicação de leitura do livro “Cine Guaracy — um filme nunca morre”, de Tainá Andrade, evidenciando mais duas de suas referências.
A experiência de Julah ressalta a importância de levar nossas vivências para a produção intelectual — sobretudo na universidade —, tornando-se um meio para estabelecer um referencial. O ciclo que se mantém ao disseminarmos a leitura feminina negra e abrirmos as portas para novas escritas enegrecidas atesta a subversão e o abalo num mecanismo de neutralização de mentes pretas. Ter o apoio de laboratórios de pesquisa nesse movimento é indispensável, como afirma Julah. “Eu não consigo me lembrar qual foi o momento em que eu tive, dentro de uma perspectiva de trabalho, liberdade de escrita. Nesse momento, dentro do Lacon, eu tenho. Poder trazer as minhas vivências é muito importante, também para inspirar outras pessoas que estão lendo essa edição e se identificando, porque já foram à roda de samba que eu indiquei, porque não conheciam o pagode da Mart'nália, mas passaram a conhecer, porque nem sabiam que existia um samba só com mulheres, mas agora tão sabendo. Essa liberdade, que têm colaborado muito com a minha criatividade, também pode servir de inspiração pra outras pessoas.”
Matéria indispensável! Parabéns, João, por dar visibilidade a esses projetos que resgatam e fortalecem a presença de mulheres negras na literatura. Contar essas histórias é fundamental para a construção de um futuro mais justo e representativo. Excelente trabalho!