top of page

Música também tem opinião política?

Foto do escritor: Comunica Uerj
Comunica Uerj
há 3 dias
3 min de leitura

Com o crescimento da polarização política, a dúvida se artistas musicais devem se posicionar publicamente ou não volta a ser debatida.

Por: Luana Maciel


Reprodução: Instagram (@citamusicais)

Protesto com cartaz com letra de Apesar de você, de Chico Buarque, durante a ditadura militar.

Um cantor ou uma cantora podem permanecer no estrelato sem demonstrar nenhum posicionamento político? Essa pergunta é motivo de debate há muitos anos, mas parece ter ganhado ainda mais destaque nos dias de hoje. Por um lado, alguns fãs cobram dos seus ídolos esse posicionamento. Outras pessoas, porém, acreditam que artistas devem se manter neutros e que a música não deveria se misturar com política.

Antes de mais nada, é preciso esclarecer que a música é, e sempre foi, política. O espaço musical, assim como a própria arte, sempre foi um mecanismo de expressão de dores, lutas e revolta da sociedade. A música tem o poder de evocar sentimentos de revolta e insatisfação diante de críticas sociais potentes.


Um clássico do rock, por exemplo, Sunday Bloody Sunday, da banda irlandesa U2, nasce a partir da indignação da banda diante do trágico episódio que marcou a Irlanda do Norte em janeiro de 1972, o “Domingo Sangrento”. Nesse dia, treze pessoas foram mortas e pelo menos quinze ficaram feridas quando membros do Regimento de Paraquedistas do Exército Britânico abriram fogo contra manifestantes que marchavam pacificamente por Bogside, bairro operário da Irlanda.


Em 2025, a banda foi consagrada com o prêmio Fellowship of the ivors academy, que faz parte do Ivor Novello Award, uma das cerimônias de premiação musical mais importantes do Reino Unido. Ao subir no palco para receber a honraria, Bono Vox, vocalista do grupo, cantou uma versão acústica de Sunday Bloody Sunday e fez um apelo ao público pelo fim da guerra em Gaza. “Eu costumava apresentar essa próxima música dizendo que ela não era uma canção sobre rebeldia, mas acreditar na possibilidade de paz era, naquela época, e ainda é hoje, um ato de rebeldia, e alguns diriam que isso é ridículo”, declarou ele.


Não seria preciso ir tão longe para entender a natureza política que a música assume. Afinal, durante os anos de censura e opressão da ditadura civil-militar no Brasil, muitos cantores criavam na música uma maneira de se expressar e resistir. Canções icônicas de nomes lendários na MPB como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque, por exemplo, nasceram nesse contexto. Músicas que são reproduzidas até hoje foram símbolos de revolução naquela época. Assim, é possível notar que a música é política.


Imagem: dmncwndrich, no Pixabay

Protesto com cartazes e panfletos sobre a preservação da natureza


O argumento de muitas pessoas que são contra os artistas se manifestarem publicamente é que, com a polarização, surge uma pressão para que os músicos comentem ou opinem sobre determinados assuntos, e se eles não fizerem isso, serão atacados, seja pela sua neutralidade ou por quem for contrário ao que acreditam.


É importante que artistas opinem publicamente porque eles podem usar sua influência e fama para defender pautas sociais importantes. O posicionamento político de um cantor ou banda não precisa aumentar a popularidade dele desde que o fã estabeleça uma relação de consumo consciente. Você não precisa parar de ouvir as músicas do artista que tem opiniões diferentes, mas se essas opiniões forem significativamente relevantes a ponto de lhe fazer parar de ouvir aquela música, é melhor estar ciente disso ao invés de permanecer na ignorância.


A verdade é que não existe uma resposta certa e simples para a pergunta que motivou essa coluna. Afinal, os artistas não precisam se manifestar, não é uma obrigação. Contudo, no atual cenário global, onde tantas causas importantes merecem ganhar visibilidade e atenção, é difícil que os fãs não esperem que seus ídolos falem abertamente sobre essas questões. Ainda mais em um espaço que sempre foi tão político como a música.



Comentários


bottom of page