Críticas a argentinos no Mundial transbordam do campo.
- Comunica Uerj

- 31 de jul.
- 2 min de leitura
Estudante relata constrangimentos e preconceitos no Brasil
Por: Renan Mariath
A Copa do Mundo se encerrou com a consagração da Espanha como bicampeã mundial. Apesar da final intensa, não foi apenas a qualidade técnica da seleção argentina que chamou atenção. Diferentemente de seleções como Cabo Verde e Egito, que ganharam repercussões positivas durante a Copa, delegação e torcida argentinas foram criticadas por parte público.
Acusações de racismo por parte da torcida argentina contra jogadores e torcedores do Egito e de Cabo Verde, objetos arremessados, xingamentos na fase mata-mata, além do caso do torcedor argentino que disse ao influenciador negro americano IShowSpeed para "chorar no zoológico", episódio condenado pela FIFA e amplamente divulgado. Tudo isto foi utilizado contra a imagem da seleção e de certa forma contra a imagem do país de modo geral.
O que começou dentro dos estádios acabou indo para as ruas e relações sociais. Muitos argentinos moram no Brasil e durante esta Copa parte dos turistas presentes no país também vinham da Argentina. Com o bombardeio de notícias negativas, alguns argentinos relataram sofrer preconceito e até medo de expor a própria nacionalidade. Como o caso de Chiara Larotonda que relatou:
“Desde que começou a copa eu senti essa rivalidade futebolística, só que foi mudando aos poucos enquanto a copa ia avançando. Comecei a sentir cada vez mais rejeição ao povo argentino, e o jeito de as pessoas me tratarem foi se modificando, senti um certo preconceito. Pela primeira vez na vida, morando aqui há um ano, senti vergonha e medo de dizer que sou argentina, e isto é muito ruim.”
Para Chiara, algumas críticas são válidas, admitindo até mesmo que ela própria reconheceu palavras preconceituosas em seu vocabulário, que mudou após começar a morar no Brasil. Ainda assim, ela ressalta a riqueza cultural de seu país, chamando atenção para a forte influência de povos originários em sua cultura. Chiara se preocupa, ainda, que há outros motivos para toda essa rejeição ao povo argentino: “Mas acredito que por trás dessa estratégia midiática de pintar a Argentina como um vilão, tem uma intenção por parte da direita política global de fragilizar em si a união da América Latina.”
A experiência relatada por Chiara evidencia como acontecimentos esportivos podem ultrapassar o campo do futebol e influenciar como as pessoas são percebidas em seu cotidiano. Em um cenário marcado pela velocidade das redes sociais e pela ampla repercussão da cobertura midiática, episódios envolvendo torcedores ou integrantes de uma seleção passam a moldar a imagem de um país inteiro. Assim, comportamentos individuais acabam sendo associados a uma identidade nacional, intensificando estereótipos e afetando aqueles que não tiveram qualquer participação nos fatos.
Entre rivalidades esportivas, episódios de discriminação e a velocidade com que narrativas se espalham pelas redes sociais, a Copa de 2026 mostrou que o futebol vai muito além das quatro linhas. Se por um lado atitudes racistas e comportamentos condenáveis devem ser denunciados e responsabilizados, por outro, a generalização de um povo inteiro a partir desses episódios levanta um debate sobre os limites entre a crítica legítima e o preconceito. O Mundial deixou um legado que ultrapassa o placar da final: evidenciou como a imagem de um país pode ser construída — ou desconstruída — em poucas semanas, transformando uma rivalidade esportiva em uma questão social.








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