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Os problemas do vício em apostas entre os jovens

  • Foto do escritor: Comunica Uerj
    Comunica Uerj
  • 2 de ago.
  • 3 min de leitura

Como o incentivo aos jogos de azar têm prejudicado os jovens adultos e dificultado a estabilidade financeira e mental durante a fase dos ‘20 e poucos’


Por: Luiza da Costa


Foto: Abr/Joédson Alves

A promessa de renda extra que surge na tela do celular, somada às dinâmicas de videogame e à facilidade do Pix, vem desenhando um cenário desafiador para os jovens adultos no Brasil. Entre os 18 e 30 anos, uma geração habituada à gratificação imediata das redes sociais enfrenta de forma precoce o fantasma do endividamento e do adoecimento mental. O que muitas vezes é vendido no feed de notícias como um passatempo inofensivo ou extensão do amor pelo esporte tem desestruturado trajetórias financeiras e profissionais desde que surgiu na grande mídia e invadiu a internet, sendo propagado por plataformas como YouTube, times de futebol, Virgínia Fonseca e CazéTV.


Mesmo com a regulamentação das Casas de Apostas em 2023 (Lei n° 14.790/2023, conhecida como “Lei das Bets"), que adiciona diversas regras para o consumo e a divulgação da prática no país, o problema do vício entre os brasileiros só tem crescido. Segundo estudos do Instituto Datafolha, cerca de 30% dos jovens brasileiros de 16 a 24 anos declararam já ter realizado apostas on-lina um índice que representa o dobro da média da população geral, comprovando que a bet vem se tornando uma cultura comum entre os jovens. "Apostei a primeira vez quando vi um vídeo de um youtuber de que eu gosto divulgando, eu tinha 16 anos. E aí, nunca mais parei. Às vezes perde um dinheiro e fica chateado, não é? Acaba com meu dia. Mas quando ganha é maravilhoso”, relata um estudante de Direito, de 20 anos, que não quis se identificar. 


A dimensão do problema com as Casas de Apostas fica ainda mais evidente nos relatórios do Banco Central, cujos levantamentos apontam que as transferências mensais via Pix destinadas a empresas de apostas variam entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões de reais, impulsionadas por transações recorrentes de pequeno e médio valor feitas diretamente pelos celulares. "Eu terminei o meu relacionamento com meu ex por conta de bet, não é? Ele falava de se casar, de ter filhos, mas não conseguia segurar dinheiro na conta, se sobrava tinha que apostar. Como que se vê um futuro com alguém assim? Impossível. Pedi para ele fazer uma terapia, mas ele não quis abrir mão, então a gente terminou", disse uma estudante de biomedicina, de 22 anos, relatando as dificuldades que enfrentava no relacionamento com o ex-namorado, de 23 anos.

"Ele me chamava para sair e cancelava de última hora, dizendo que tinha perdido aposta e não tinha mais dinheiro. Era horrível, não é? Não dá para viver assim”, completou.


Para compreender a vulnerabilidade do público jovem, é preciso analisar a forma como esses serviços são desenhados e divulgados. Ao contrário das loterias tradicionais, os jogos virtuais do tipo crash — do inglês, destruição, são jogos que simulam combinações de três elementos similares — utilizam recursos visuais e sonoros idênticos aos dos videogames e jogos de celular como Candy Crush, alimentando a falsa percepção de que a prática envolve habilidade ou treino. Essa estética é reforçada pelo marketing nas redes sociais, em que influenciadores associam as apostas a um estilo de vida próspero, como Virgínia Fonseca, que atualmente é a maior influenciadora do país, propagando a ideia de que o celular é uma ferramenta de trabalho capaz de gerar renda sem esforço. Para completar essa engrenagem, o sistema Pix elimina o atrito de pagamento, fazendo com que o dinheiro saia da conta bancária e vire saldo de jogo em segundos, retirando a percepção física do gasto e acelerando as perdas.


O impacto desse ciclo vai muito além do aspecto financeiro. Jovens em início de carreira e estagiários frequentemente comprometem o salário em poucos dias, recorrendo a empréstimos bancários e limites de cartão de crédito para tentar reaver o valor perdido. Esse ciclo sem fim gera noites mal dormidas e uma instabilidade desesperadora, que dificulta enxergar um futuro e podendo nutrir depressão e ansiedade severa nos jovens. Diante disso, a Organização Mundial da Saúde passou a considerar o Transtorno do Jogo uma condição mental que requer um cuidado especializado – o que reforça a importância de divulgar grupos de apoio como o Jogadores Anônimos no Brasil, que vêm crescendo e já possuem várias unidades espalhadas pelo país, inclusive no Rio de Janeiro, com reuniões gratuitas na Tijuca, na rua Barão de Mesquita, 275, na sala 205, às terças e quintas-feiras, das 19h às 21h.



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