Estudantes do 10° cansaram do minimalismo estético importado e autora também
- Comunica Uerj
- 27 de mar.
- 4 min de leitura
Resgate do maximalismo por três uerjianos tem impactado a moda universitária e colocado em pauta as controvérsias da estética ‘clean girl’
Por Carolina Coutinho
Fotos por: Lara Soares

Enquanto algumas pessoas ainda se limitam à calça de shopping com regata, três alunos do décimo andar da Uerj – Campus Maracanã – têm sido representantes da resistência maximalista. Com seus inúmeros acessórios, mix de estampas, cores e texturas, penteados e maquiagens marcantes, Iris Souza, Manuella Alves e João Ribeiro têm inspirado uerjianos. Seus looks deixam explícita a urgência de pararmos de importar tendências tão alheias a ideias centrais da moda – como expressão pessoal, contexto e personalidade – para o dia a dia universitário.
Falar da estética clean girl e da tendência minimalista, que imperou no mundo da moda nos últimos anos, é falar de pandemia. Durante o período de quarentena, a ideia de ordem e produtividade nos vendia a ilusão de uma vida perfeita, organizada e bem-sucedida, como se um penteado milimetricamente alinhado com gel fosse sinônimo de sucesso. Logicamente, alguns efeitos do isolamento social perduram até hoje, mas, em 2025, será que ainda existe espaço para um estilo de moda e de vida que prega a perfeição a todo custo?
Os três estudantes do décimo andar da Uerj concordam com a colunista que não! Quando perguntadas sobre suas opiniões a respeito do minimalismo na moda, Manuella Vitória Alves e Íris Souza, ambas estudantes de Relações Públicas e conhecidas por seus looks na Uerj, concordaram na relação dessa estética com o racismo. Íris, por sua vez, destacou: “Eu sou uma mulher negra. Então, para mim, tudo que envolve minimalismo e a ideia de ‘ser clean’ me remete ao racismo. Porque a gente sabe de onde vem a estética maximalista, e não é de pessoas brancas”, disse ela.
Foto por: Lara Soares

Para além da questão racial, no contexto pandêmico, tão caótico e anormal, essa tendência fazia – até certo ponto – sentido, mas junto ao retorno aos espaços de sociabilidade, veio a inadequação dessa tendência tão regrada e sem espaço para criatividade e expressão pessoal. Além disso, deve-se lembrar do contexto cultural e do cenário climático em que o Brasil está inserido. Por isso, um look composto por calça e blazer de alfaiataria, definitivamente, não são as únicas, e nem de longe as melhores opções para habitantes de um país de clima tropical, e tão rico em tecidos, modelagem e estampas.
Contudo, os críticos do maximalismo defendem que uma maneira mais básica de se vestir, além de mais cômoda, é mais sustentável. Sobre o último ponto, devem ser alertados aqueles que pensam que o maximalista se contenta com fast fashion. Na realidade, os três estudantes defenderam o consumo consciente, e afirmaram que compram suas peças em brechós e são adeptos ao upcycling – técnica de reaproveitamento e transformação de resíduos têxteis em novas peças: “Dá sim pra você ser maximalista gastando pouco e fazendo uma moda cíclica e sustentável.”, disse Íris. Além disso, João Otávio Ribeiro – também conhecido como Lebron –, aluno do 3º período de Jornalismo da Uerj destacou que confecciona seus próprios acessórios.
Foto por Lara Soares Foto por: Carolina Coutinho

Os acessórios, o elemento fundamental do maximalismo, que coloca o último prego no caixão das clean girls. Isso porque se vestir com peças simples não implica necessariamente uma estética minimalista. Sobre isso, Íris explicou a importância dos acessórios para os seus looks: “As minhas amigas me ensinaram a montar meus looks a partir dos meus acessórios. Eu acho que traz mais vida para as minhas roupas, porque às vezes eu não estou a fim de me vestir de forma tão extravagante, mas ainda quero me sentir bonita e arrumada.”
Para além de elevar o visual, Iris relembrou a importância histórica dos acessórios para a comunidade negra, tendo sido a forma encontrada pelos escravizados para conquistar a sua alforria. Por isso, segundo ela, valorizar o maximalismo e suas origens “é algo que vai muito além da moda, é sobre resistência.”
Assim, fica claro que, para os uerjianos maximalistas, conforto é sinônimo de expressão pessoal. Eles concordaram com a colunista que, para a maioria dos universitários, a prioridade é o conforto físico, mas destacaram a importância de se sentir confortável com a própria aparência e a possibilidade de se expressar e experimentar em um espaço como a universidade.
Foto por: Lara Soares

Inclusive, Manuella Alves, mais conhecida no décimo andar como Manu Bruta, afirmou que a universidade é o espaço onde se sente mais livre para se expressar e viver o seu estilo, já que, desde o momento em que começou a trabalhar no mundo corporativo, precisou se adaptar a um código de vestimenta mais restrito. Para ela, se sentir confortável é sobre ser ela mesma e confessou: “Demoro muito mais para escolher uma roupa com a qual eu possa ir trabalhar, mas que não faça eu me sentir tão estranha, tão não eu mesma. Então, ter que me moldar aquele ambiente é o que me gera desconforto.”
Foto por: Lara Soares

Infelizmente, o conforto não é comum para todos. Apesar de se sentir bem explorando seu estilo pessoal, João Otávio destacou sua experiência como um homem negro que adota um estilo que foge do padrão heteronormativo. Ele destacou a pressão e o desconforto gerados por olhares de desaprovação e preconceito. Segundo ele, quando expressa seu estilo de maneira mais socialmente aceita, pessoas mais velhas elogiam. Porém, quando o pente garfo e acessórios como anéis, pulseiras e colares entram em cena, os doces elogios se transformam em um preconceito amargo
Foto por: Lara Soares

Commentaires